sexta-feira, agosto 24, 2007

Até que a morte, ou as poltronas dos aviões, nos separe


N
ão existe coisa que me irrite mais ultimamente do que a reação dos casais quando acomodados em poltronas distantes num vôo. É quase desesperadora a reação de convencimento do vizinho da necessidade de troca das poltronas para que os dois possam viajar lado a lado. Acredito que as companhias aéreas, na sua atual crise de perversão, fazem de propósito cuidando nas filas quais os casais mais apaixonados, para na hora do embarque separar os pombinhos. O incrível é que até em uma viagem curta de uma ou duas horas, a possibilidade de separação gera gravez reações fazendo com que funcionários e outros passageiros, principalmente os infelizes localizados na vizinhança destes casais, se mobilizem no sentido de consertar esta separação momentânea que tantas angústias têm causado.


O romantismo enalteceu o amor de forma grudenta, inseparável, como se o casal colocado num liquidificador social se misturasse num só, ou numa teoria mais adocicada, como se fossemos “anjos de uma asa só”. As individualidades ficam perdidas, os desejos se tornam necessidades, a convivência vira obrigação. Tudo cantado com o rótulo de amor total, mas que no fundo escondia a submissão e dependência. Já a modernidade, com sua pregação pelo individualismo e sua ênfase no racional, vendeu uma idéia quase egoísta de liberdade com as relações “livres” sem compromisso, planos e cuidados mútuos. Hoje, numa época vazia de novas idéias e ao mesmo tempo laboratório de experimentos diversos, se vive um pouco de cada uma destas tendências, juntando não raro o pior delas. As pessoas que não conseguem se separar por uma hora e meia num vôo Brasília x São Paulo são, possivelmente, as mesmas que não assume relações, não querem saber de compromisso, não aceitam os riscos da convivência do chamado amor careta.


Amor e convivência são meio irmãos que brigam deste o nascimento. Já vi casais que viviam juntos há mais de 60 anos entre amores e brigas, solidariedade e caras feias, mas que não admitiam nenhuma possibilidade de separação e as que ocorriam, de forma rápida e momentânea, já era porta pra tristeza e a depressão. Quando a morte chegou mais cedo para um deles, o outro começou a morrer no mesmo dia. Valores mais elevados atenuam a rabugice normal que a idade e torna a convivência mais difícil. Nossa geração tem dificuldade de filtrar o essencial perdendo-se em detalhes e exigências incoerentes.


O eixo dos relacionamentos esta na capacidade de conviver e se afastar de modo
dosado sem prejudicar o sentimento e a individualidade das pessoas envolvidas. Nem se tornar uma sombra do outro, nem enlouquecer quando um compromisso individual ocupa o tempo da cara metade. Aliás, acho que um distanciamento crítico, umas férias conjugais, proporciona pontos de vista que o cotidiano e suas necessidades não permitem ser sentidos. Sente-se a boa saudade, hoje tão difícil graças ao avanço do virtual nas relações que aproximam sem aproximar. São as oportunidades de reavaliar coisas e valorizar outras. O afastamento temporário nos faz pensar no valor das coisas importantes e descobrimos que outras, a que dávamos tanto valor, são detalhes às vezes pequenos demais. É o que chamam de tempo do deserto que pode durar meses e anos ou algumas horas num vôo.

6 comentários:

Slim Shady disse...

Infelizmnete eu nunca voei,então nunca passei por essas situações.
Mas pela bela forma que vc a descreveu dá para ter uma noção...

Abraço!

MaxReinert disse...

... pois é...... ficar juntos a maior parte do tempo!!! necessidade ou insegurança??? Será que não há o risco de, enquanto não está comigo, conhecer alguém mais interessante do que eu?????

Não acredito nos amores felizes demais e "grudados" demais... aliás, não acredito em nada que venha com a palavra "demais" grudada logo atrás!!!!

bjzzzzzzz

Breno disse...

Bom texto, mesmo!

R Lima disse...

Lata de Sardinha seria uma boa definição n é???

E amor grudento.. sei não.. incomoda.r.s..s





O AveSSo convida a redescobrir Vicente Celestino... "A Voz Orgulho do Brasil"



[ http://oavessodavida.blogspot.com/ ]

O AveSSo dA ViDa - um blog onde os relatos são fictícios e, por vezes, bem reais...

Erik disse...

interessante!
comenhtado!
www.h4ck3rik.com

Denise Rodrigues disse...

Teus textos são sempre maravilhosos, mas esse eu adorei MUITO!!!!!!!
Beijinhos, da velha amiga
Denise (Birô)