quinta-feira, novembro 15, 2007

Beleza além do óbvio


Dos padrões sociais que mais nos massacram, o senso comum da estética que cria uma categoria única de beleza e a impõe como correta e única, é o que exerce de forma mais forte seu poder sobre todos nós. Nestes tempos de consumismo e valoração excessiva do físico e do material, o cuidado para ser belo ganhou o patamar de necessidade e quase exigência. Em nome disto se enchem os consultórios dos cirurgiões plásticos, os salões ditos de beleza, as academias e as lojas de grife. Eternamente insatisfeitos desaguam nas salas de psicanalistas, com a auto-estima dilapidada, e em busca de respostas que não conseguiram encontrar. Não se trata apenas do comum desejo de saúde e bem estar, mas da necessidade interna de se enquadrar num perfil para se tornar aceitável pelo conjunto social. Os que não estão de acordo com esta norma castradora são alijados, esquecidos, preteridos. Os rostos se virão, os olhos evitam, o contato físico fica impossibilitado.


Ditaduras terríveis pregaram ao longo da historia a criação de uma "raça superior". Sacrificando os que estavam fora deste padrão, afirmando que sua própria sobrevivência significava um empecilho para que o padrão de beleza superior reinasse. Hoje, infelizmente, vemos de forma mais velada e mais hipócrita, uma repetição desta postura. Não mais mandamos para a câmara de gás os diferentes, mas queimamos sua alma com o anonimato, a invisibilidade, a exclusão e a sucessão de negativas. O império do padrão "malhação" impõe a necessidade de um corpo sem falhas, muito mais do que um cérebro que funcione quando se selecionam para vagas de emprego, reduzindo os espaços para quem foge da estética estabelecida, a não ser eventualmente como motivo de piada ou foco de curiosidade, cujas vidas são transformadas em circo ou vitrine.



Tenho uma admiração muito especial por quem se arrisca e segue contra a maré. Quem valoriza outras formas de beleza, quem apreciam a diversidade não pelo inusitado, mas porque trazem em si aspectos que não se enquadram no comum, desprezando o banal e o esperado. Conheci outro dia o trabalho da fotógrafa americana Diane Arbus, que é um exemplo de valorização do diferente. Através de suas lentes, que privilegiavam deficientes, albinos, anões, gigantes, travestis, nudistas, pessoas de terceira idade ou outros tipos, pode ajudar-nos a sair um pouco do padrão que nos oprime e encontrar beleza nos tipos menos comuns. A beleza do olhar tranqüilo, do sorriso sereno, da calma, do toque carinhoso, da fala harmoniosa, do gesto refinado e da postura digna apresentados em corpos fora do peso e altura vendidos como ideal, ou cheios de rugas tanto evitadas.



Olhando seu trabalho refletia sobre o quando nosso olhar é tão viciado, que já apreciamos alguma coisa ou alguém com uma opinião fechada a respeito. Quantas coisas nós acabamos perdendo por não vencermos a barreira do banal. Fechamos-nos em círculos idênticos, onde pares siameses se reúnem para falar coisas que todos concordam cultivando a mesmice e a paralisia. Como é difícil vencer esta barreira indo além do convencional e nos permitindo ampliar o conhecimento através das experiências de convivência. Quando se tem a experiência de ser o diferente, - como a que senti andando pelas ruas dos países africanos, sendo o único branco- aí que se descobre o quanto o olhar do outro, ora curioso ora de censura, reflete sobre o nosso senso de estética. Ver o belo numa legião de iguais é uma tarefa fácil embora cansativa, deter-se nas nuances de cada pessoa e tornar esta peculiaridade um valor de descoberta exige mais, pois carece de força para romper o cordão de proteçao formado.



Fico animado quando vejo alguns jovens rompendo estas barreiras não apenas no vestuário, mas no comportamento, quebrando paradigmas e ampliando o leque de possibilidades. Outras gerações já fizeram isto e entraram para a história, infelizmente o comodismo da vida adulta acabou transformando todos em engravatados com resignação. Ver o outro lado além do costumeiro imposto é um esforço que nem sempre as mentes adestradas conseguem alcançar, mas quem foge do "sistema" passa a desvendar um novo mundo além da casca, aproximando-se da essência e aprendendo mais da vida.


9 comentários:

Patrício disse...

Hmmmm, acho que sei em quem esse post foi inspirado, hehehehe...

ELIANA. disse...

Oi Liandro, tudo bem?Estou passando por alguns blogs e cheguei até aqui!!Parabéns o seu blog é muito legal!!Adorei os seus comentário!!...mas menino!!Você vê tudo isso mesmo??Olha só aquele Papai Noel!!Liandro, eu lhe desejo tudo de bom!!Tenha um ótimo domingo!!Um abração!!

Diego Moretto disse...

Realmente, em plena era do culto ao Corpo, quem consegue se desvencilhar dessas classificações e marcações feitas pela sociedade, deve ser reverenciado. Belo uso o da fotografa. E hjá muitos por aí. Principalmente na música, em que artistas tentam alertar que padrões estão para serem desrespeitados e que não devemos nos preocupar em chegar à uma estética aceita pela sociedade. Sem mais, adorei o texto.

E é por textos assim que me senti obrigado a te indicar para outro selo no meu blog. Espero que goste. abraço!

CapinaremosRH@gmail.com (Zanfa) disse...

Complicado mesmo. Eu vejo numa ótica que o corpo deve ser saudável. Sendo saudável ele é belo.

=)

Diogo disse...

Parabens!

Adorei

Francisco disse...

Eu, que sou da publicidade, concordo com isso. Há exageros. Lembro na época da Copa 2006, um colega comentou q parecia q quem não comprasse uma Tv de plasma não iria ver a Copa, devido ao excesso de propaganda da Casas Bahia e etc. Até a Veja publicou um assunto de capa sobre o assunto. Lavagem cerebral é feita pela mídia de massa. É por isso que gosto de blogs.

Bom texto, T+

Robertinha Ribeiro disse...

Como eu me identifiquei com o texto...
E veja que os padrões de beleza sempre mudam! Antigamente as gordinhas eram lindas, agora são repugnantes... Por quê?!
Eu sou gordinha e me orgulho disso. Beleza é efêmera; minha inteligência com certeza perdurará!

Parabéns pelo blog!

Carlos César disse...

Como leitor assiduos de seus textos não poderia deixar de passar por aqui mais uma vez.
Nunca se viu uma busca tão incessante pela felicidade igual vemos nos tempos de hoje. Infelizmente, a felicidade foi reduzida a uma soma de prazeres e bens finitos, muitas vezes mais cobiçados que os infinitos.
De uma forma geral, no ardente desejo de eternizar o presente, muitas pessoas, buscam artifícios que aparentemente são capazes de prolongar a vida: malhação, dietas rigorosas, cirurgias plásticas, e o velho estica e puxa. A ética deu lugar à estética.
Nisso chegamos ao que vc de forma muito inteligente escreveu sobre a beleza que está além do obvio.

Rharry Belloti disse...

Ótimo post, cara!!! As pessoas estão cada vez mais preocupada em um corpo escultural, esquecendo da saúde, da alma...
Beijo.