sexta-feira, novembro 07, 2008

Obamania







O negro Barack Obama foi eleito esta semana presidente dos Estados Unidos da América. Festas e emoções para todo o lado. Minha vida não mudou nada. Continuo acordando cedo, ralando todo o dia, encarando o clima seco e a chuva esparsa, o trânsito, a correria, as contas pra pagar. Grande parte das pessoas busca num evento com escala mundial uma saída para seus problemas pessoais. Um norte, uma esperança, uma possibilidade. Como se o sucesso de uma pessoa ou de uma nação fosse refletir na vida individual de cada um transformando as coisas ruins, com a invasão da vitória alheia. Não estou minimizando a chegada de um negro no governo do país mais poderoso do mundo, nem relativizando o fim da era Bush. Trata-se de um evento realmente histórico, com influência em todos os cantos. Se não fosse George Bush o presidente não teríamos guerra no Iraque, talvez nem crise financeira mundial e os carros continuariam sendo vendidos em 60 vezes.

Acho que devido à idade e aos últimos acontecimentos, ando ficando cada vez mais cético em super heróis. Não creio que uma pessoa por mais de boa vontade que seja vai mudar tanto o mundo a ponto de acabar de vez com as injustiças. Os governos sempre estarão beneficiando uma fatia da população e prejudicando outra. Ou estarão sempre buscando os interesses dos seus próprios países nem que para isto tenham que tripudiar em cima dos outros. Esta é a condição humana em forma de política. O que mais me chama a atenção neste fato histórico é o clima de salvação que se instala, a meu ver errôneo e perigoso. Não é difícil de entender por que isto acontece, afinal o presidente americano atual chega ao fim do seu mandato com baixos índices de popularidade, com uma crise sem precedentes e com pouca simpatia mundial. Mas querer creditar ao presidente eleito uma saída mágica é um engano.

A história quase se repete como farsa, quando Jonh Kennedy foi eleito em 1960, a atenção gerada por um presidente jovem, cheio de idéias e potencial reascendeu as esperanças em dias melhores para os americanos e para o mundo. Em seguida vieram a Guerra do Vietnam, da invasão da Baía dos Porcos em Cuba e da crise dos mísseis com a URSS, que quase levou o mundo a uma guerra nuclear. Lembrando que Kennedy era católico num país de maioria protestante, assim como Obama é negro num país notadamente marcado por divisões racistas. Ambos eram jovens quando assumiram o comando do seu país, Keneddy com 43 e Obama com 47, ambos do mesmo partido e os dois casados com mulheres fortes e carismáticas. E ambos respaldados pelo signo da mudança e de uma nova possibilidade. Muitas coincidências que espero acabem por aqui.

A euforia pode ser causa detonadora de uma catarse contida e reverberar em vontade de fazer, mas deve ser principalmente canalizada ao esforço individual de cada um e não transferida para os ombros dos outros, mesmo que sejam ombros poderosos. O bordão de toda a campanha do candidato democrata: “Sim nós podemos”, apesar de ser bem ao estilo de mantra de auto-ajuda ou daquelas frases que os vendedores de um tipo de loja gritam e cantam antes do expediente, revela quando bem interpretada uma verdade. A capacidade de mudança existe dentro de cada um de nós, mas o mais difícil é acessá-la. Bloqueios de toda a ordem e preguiças variadas tendem a transferir a mudança para fatores externos, que podem nunca ocorrer e tudo acaba igual e repetido. Uma frase que li outro dia resume esta situação: “Não há nada que seja maior evidência de insanidade do que fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes”. Que venha a fase Obama, mas sem exageros e sem cultos a super heróis e que o somatório de mudanças individuais seja o detonador de reais mudanças coletivas.



7 comentários:

OM NAMAH SHIVAYA disse...

Coerente, ácido... No mundo existem questões que somente mudarão com um novo início, mas isto não é para agora. Oxalá dezembro inspire-o a trazer boas novas de esperanças e alto astral para os leitores.

João Guerreiro disse...

Inteligente o texto, percebeu bem o momento histórico.

claudia q. disse...

ADOREI o post!!!
Principalmente a bela e profunda reflexão sobre o "sim nós podemos".
Concordo com o teu "olhar"...
Saudades e grande beijo!

Carlos Gomes disse...

Nossas vidas não mudam...
Percenbendo esse momento "Obama", fiquei triste com posturas de brasileiros que prefiro nem comentar (me deixa envergonhado), Obama não será o salvador da pátria, ele irá governar um país que explora, que faz intervenções políticas e, principalmente armada...

Parabéns pelo texto Liandro.

Abração
:P

Jaques Jesus disse...

Mas é Obama é negro, isso por si só já é uma vitória. Triste Brasil, que perdeu o bonde da História...

Leo disse...

Análise precisa!
Como sempre, aliás!

Larissa Bohnenberger disse...

Ceticismo compartilhado.
A eleição de Barac Obama à presidência de um dos países mais racistas e conservadores do mundo ocidental tem um significado histórico muito importante. Com certeza é um avanço incrível, motivo de orgulho. Mas Obama não é super-herói, não tem nas mãos o poder de acabar imediatamente com a guerra e com a crise econômica, como o mundo inteiro espera. Aliás, eu não gostaria de ser ele, neste momento. A pressão é gigantesca. E como tudo aquilo que surge acompanhado de uma expectativa muito grande... é decepção praticamente certa. Tomara que eu esteja errada!
Bjs!