quarta-feira, janeiro 03, 2007

Rocio Durcal: Adeus à última Diva


Estão de luto os amantes dos tangos e boleros. Choram os fãs das baladas, pasodobles, rumbas, mariachis e rancheiras. Lamentam-se os apreciadores da música romântica, aquela cuja companhia varia entre um vinho encorpado, uma garrafa de uísque ou a parceria de uma grande paixão. Vestem-se de preto, em pesar, os arranjos musicais, as letras dramáticas e açucaradas - a melhor companhia para um bailar de rosto colado sem pressa e o maior ingrediente para manter as lembranças de amor, chorar mágoas e reviver bons momentos. Calam-se as orquestras e os bons discos, se levantam taças em sua homenagem, silêncio entre os boêmios que secam as lágrimas discretamente com um lenço de seda. Após longa luta contra o câncer, faleceu em Madrid, a cantora Rocio Durcal. A comoção na Espanha pode ser comparada à mesma que Portugal sentiu com a morte de Amália Rodrigues em 1999 ou ao culto do mito de Edith Piaf na Franca.dith Piaf na França, morta em 1963.

Expressão maior no país deste ramo musical, Rocio foi chamada de “a mais mexicana das cantoras espanholas”, dada à dramaticidade e força em suas atuações, em especial das músicas do compositor mexicano Juan Gabriel, cuja interpretação ímpar se especializou. Nascida María de los Angeles de las Heras Ortiz, era a mais velha numa família pobre com outros seis irmãos. Sua carreira iniciou aos 10 anos num concurso de rádio onde fascinou a todos, vencendo depois várias outras disputas radiofônicas. Logo veio o sucesso ao ganhar um concurso nacional pela TVE, aos 17 anos, arrancando demorados aplausos pela capacidade de sua voz mezosoprano e sua fama ganhou fronteiras chegando ao México e aos países de língua espanhola. Ao longo de 40 anos de carreira, gravou com os grandes interpretes do seu país como Guadalupe Pineda, Pepe Aguilar e Joaquín Sabina entre outros. Com Roberto Carlos também teve uma parceria com músicas em espanhol.Tal atuação teve o reconhecimento da crítica internacional sendo laureada pela Associação dos Jornalistas de Espetáculo de Nova York com o prêmio de melhor cantora por três ocasiões.

No cinema atuou em 14 filmes, dentre eles uma versão da Noviça Rebelde em 1971, seis anos depois de Julie Andrews. Por sua atuação em Marianella (1972), dirigida por Angelino Fons, foi premiada como melhor atriz pelo Círculo de Belas Artes da Espanha. No teatro atuou em três peças e um especial de teatro na TV, onde também protagonizou uma minissérie de 14 capítulos intitulada “Os negócios de Mamãe”. No início da década de 70 casou-se com outro famoso cantor espanhol, Junior, com quem teve três filhos. Mas foi nos anos 80 deu uma virada na sua carreira passando a dedicar-se exclusivamente a música, sobretudo a que marcou o inicio de sua trajetória artistica. Gravou 35 discos vendendo mais de 40 milhões de cópias em todo o mundo recebendo disco de ouro nos Estados Unidos, México e Venezuela, e um de platina na Espanha.

A luta contra o câncer e os últimos anos de sua vida foi marcada pela extrema discrição com que a família tratou o assunto. Querendo uma morte digna e serena perto dos seus, optou por exilar-se em sua casa no bairro de Torrelodones, na capital espanhola, de onde o corpo foi conduzido para ser cremado. Partes de suas cinzas ficaram ali depositadas e parte foram colocadas aos pés da Virgem de Guadalupe, na Basílica de mesmo nome na Cidade do México, em cerimônia tocante que reuniu milhares de fãs. A dignidade, a amizade no meio artístico, o reconhecimento ao esforço em todos os momentos difíceis da vida foram suas características. Com ela se encerra um ciclo de grandes divas do século XX, cuja carreira confunde-se com a aura de mito e de identificação de um povo.

Num de seus tangos favoritos, “Madreselvas em Flor”, imortalizado por Libertad Lamarque a quem Rocio homenageia em um de seus últimos discos, as frases finais falam das flores perfumadas da madressilva que sempre retornam todos os anos. O perfume alerta para a chegada da estação e trás a lembrança de bons momentos: a esperança da primavera que faz com que o primeiro amor nunca morra. Tal como a letra, que a cada tango ouvido renasça o perfume dos bons sentimentos que Rocio Durcal plantou no coração da tribo em extinção dos românticos.

6 comentários:

Cláudia Q. disse...

Belíssimo texto!
Gosto muito de te ler...
Saudades!

Para o alto e avante! disse...

Belo texto mesmo!
Agora que descobri seu endereço, vou passar aqui sempre que puder!
E como estão as coisas por aí? Estou sumido do orkut... muito trabalho...
melhor assim né?
Abs
Ewerthon

joao feio disse...

Já partiste mas estás comigo adoro a tua voz.
Se estou mais em baixo basta ligar o yutube e ouvir essa voz maravilhova que nunca morrerá
obrigado rocio

Anônimo disse...

Bonito texto, mas que pena pela partida dela, não é?
Gostei do seu blog.

Alex

Flavio Arruda disse...

Belo texto, bela artista, belas músicas... O mundo ficou um pouco mais pobre de romantismo. Sou um de seus fãs incondicionais.
Flavio (fcarruda@gmail.com)

Anônimo disse...

Só hoje, pesquisndos seu trabalho
soube que não estás mais entre nós. Mas estará eternizado com sua voz ímpar em seus lindos boleros. Adquiri um disco seu quando de pasagem na Venezuela. Me apaixoneu!
Abraços e seu Blog estárá entre os meus favoritos.
Antonino Teles - BSB-DF
antonino_teles@yahoo.com.br