sexta-feira, abril 13, 2007

A maldade nossa de cada dia e o prazer que ela nos dá. O rabino, o ator e minhas formigas.


Ando experimentando nestas dias um incrível prazer em ser mau. A cada dia mato dezenas, talvez centenas de formigas que teimam em invadir os cantos da minha cozinha. Sinto um prazer quase orgástico em espalhar inseticida em cima delas e observar o desespero da correria e algumas que ficam se contorcendo ou paralisadas. Como o número de formigas é infinitamente maior do que a minha capacidade de matá-las, a cada dia exercito minha dose de maldade. Como se fosse um remédio cotidiano. Aliviado sigo meu dia até o próximo holocausto fórmico. Não se espantem os que me conhecem deste o tempo de primeira comunhão, os que me amam ou que me consideram. Minha maldade ainda é limitada e controlada, muito em função desta moral que adquiri durante a vida e que, às vezes, se torna tão difícil de carregar.

Enquanto acabava com as formigas pensava na porção de maldade que existe em cada um de nós, considerando maldade como o ato de cometer alguma coisa fora da ética-padrão de determinada sociedade, que envolve danos. Alguém que foi apontado como exemplo e admirado por seus atos uma vida toda, tem o direito de sair um pouco da estrada estreita da virtude e cometer um ato considerado maldoso, imoral ou fora da ética? Fato recente como o do rabino que foi pego roubando gravatas caras numa loja americana serve de exemplo. Tudo podia ter passado em branco ou se esgotar no pagamento ou na parte judicial, mas como o protagonista era alguém conhecido por estar em defesa dos direitos humanos, da ética na sociedade e da seriedade na coisa publica, o foco mudou. Hoje a cada citação dele se acopla à referência ao fato das gravatas, esquecendo seu valor e suas ações ao longo de anos.

Formamos imagens de pessoas transformando-as em super-heróis sem defeitos, isentos de qualquer tentação, vaidade ou contradição, esquecendo do seu principio que é o de ser humano. O galã bonitinho que habita o desejo das adolescentes e de suas mães, para ser o genro perfeito, se apresenta num novo trabalho depilado, recheado de piercings e com gestos cheios de mesuras e imediatamente chovem criticas afirmando que sua imagem se abalou, que seu talento se desperdiçou numa quase decepção histérica. Cria-se a expectativa de que, no caso, o profissional deve se prender a imagem criada sem dela desviar sobre pena de deixar os fãs daquela imagem frustrados. São comuns histórias de pessoas públicas envolvidas em acidentes de trânsito, drogas, bebidas em excesso ou festas animadas, e que depois sofrem um julgamento moral hipócrita, quando não sobram tentativas de chantagens por parte de algum intrometido de plantão.

Se admitir nossas fraquezas é difícil, muito mais deve ser o peso de sustentar uma imagem pública criada artificialmente, mesmo que em várias situações os próprios envolvidos que a criaram. Ficar refém da própria imagem é um tormento, ser prisioneiro do mito é um sofrimento. Seria como juntar a cabeça de alguém no corpo de outra pessoa criando assim um Frankenstein fantasioso, mas sem base de sustentação e sem conteúdo que ao mesmo tempo em que atrai também espanta. A busca por ser alguém que não se é leva a sacrifícios e talvez o maior deles seja esquecer que temos um lado sombra com quem convivemos e que se manifesta em atitudes de grande âmbito ou simplesmente sorrindo com prazer enquanto se mata formigas.

12 comentários:

Akio disse...

os unicos que sofrem são os que criam os mitos, sejam pra outros, seja pra sí mesmo.
os outros sofrem do efeito porque acreditaram nesse mito. Sofrem da desilução.

Danilo disse...

Belo post ! comcordo com o amigo de cima "os unicos que sofrem são os que criam os mitos, sejam pra outros, seja pra sí mesmo.
os outros sofrem do efeito porque acreditaram nesse mito. Sofrem da desilução." ..

André disse...

Interessante as considerações levantadas pelo tópico. Lembrou-me a frase de Nietzsche que diz que as grandes épocas de nossa vida são aquelas em que temos a coragem de rebatizar nosso lado mau de nosso lado melhor.

Polly disse...

Excelente post!!! E a parte das formigas principalmente!! Lembrei-me da minha infância, quando eu adorava exteminar formigas....

cláudia q. disse...

Mais uma vez...brilhante!
Não adianta te colocar em corpo sarado, te prefiro bem peludinho!!!

Anônimo disse...

Sempre brilhante.
Amei o texto.
Te cuida!!!

Daniel Moraes disse...

Epa cara, tudo beleza?
Gostei do seu blog, e confesso que me identifiquei com a sua maldade com as formigas, mas é algo normal, maldade faz parte do ser humano, em pouca ou as vezes, em muita quantidade, uma espécie de ying yang, um equilibrio.

Abraços, fique com Deus.

MaxReinert disse...

... Eu não mato formigas.... mas também cometo minhas maldades muita mais vigorosas que essas! ... principalmente a maldade mais infame que é se privar de cometer determinados atos... por moral ou por medo de um julgamento posterior!!!!... de qualquer jeito sempre cometemos algo... o que é pior?

ABS. disse...

é que as pessoas esquecem do livre arbítrio que nos foi dado e ficam cobrando retratações... coitados de nós, mortais!

Anônimo disse...

Passar querosene embebido num pano é ótimo pra espantar formigas e baratas da cozinha. É bom passar nos azulejos e no chão.
Só não exagera na dose pq o cheiro vai ficar bem forte.

Guiga disse...

Meu Deus!!!!
Teve até receita pra espantar insetos...rsrsrsrsrsrsrsrs...
A vida realmente a cada dia muda, e por causa disso as pessoas se acham no dever de crer no que estão vendo, sem analisar o que já avistaram. Queira Deus que nossos corações, pobres por não compreender, aprendam a aceitar a vida como ela é!!!
Abraço

Patrício disse...

Adoro matar formigas. Tenho alergia a elas. Mas é impressionante, quanto mais eu mato, mais formigas aparecem.

Tem um aqui na minha mesa agora, juro!

(...)

Pronto, mais uma que se foi!