sábado, abril 21, 2007

Das graças e dos prazeres da boa literatura


Estou lendo “Cem Anos de Solidão”, a grande obra do colombiano Gabriel Garcia Marques, que esta completando 40 anos de lançamento. Fico encantado com o estilo, as frases bem tiradas e as histórias contadas de dentro, com uma intimidade com o leitor que as torna quase visível. Na cidade de Macondo, onde se passa a trama, é como se todas as nossas vidas ali fossem refletidas, pelo menos em pequenos fragmentos, nas agruras e deleites da família Buendía e dos seus outros habitantes. A capacidade do autor de unir palavras para formar uma frase vai além da mera comunicação de idéias, abre as portas para divagações e apreciação dos prazeres que a leitura proporciona. Às vezes eu as repito várias vezes a leitura, não raro em voz alta, para captar sua mensagem, como quem busca o perfume de uma flor. Sempre acabo sublinhando o texto e não raro volto as paginas só para desfrutar novamente das frases e descobrir novos pontos de vista sobre ela.

Ano passado passei semanas envolvido com outro livro de Garcia Marques. Curti cada página, cada parágrafo de “Amor nos Tempos da Cólera”. Um amor que espera por mais de meio século e cujo desenrolar é apresentado nas páginas do romance com detalhes tão grandes, mesmo nas mais miúdas cenas, que se torna impossível não se apaixonar por aqueles personagens tão especiais. Firmina Daza a mulher que morria de medo da culpa e Florentino Ariza o homem obstinado por um amor juvenil que não deixou de viver sua vida enquanto a esperava. Narrativa envolvente com descrição refinada do amor nas suas diversas fases da vida, em especial na maturidade quando ele ressurge sem a rigidez dos músculos e as abundâncias das formas dos corpos, mas que explode nos sentimentos verdadeiros de quem viu a vida por ângulos diversos.

No intervalo entre um livro e outro li, do mesmo autor, “Memória de Minhas Putas Tristes”. Apresenta-se uma história simples, um homem, como eu jornalista, em seu aniversário de 90 anos resolve ter uma noite de amor louco com uma virgem. Antes nunca havia experimentado sexo pago e se concede este capricho. Ele tem uma coluna semanal no jornal local e eu tenho um blog. A narrativa plena de metáforas sobre amores e desamores leva a ver a verdade de que para o amor não há tempo nem idade e que mesmo um velho pode morrer de amor em vez de velhice. Fantástica reflexão sobre a velhice e a celebração das alegrias da paixão. Para eu que um dia cheguei a achar que existia prazo de validade para a capacidade de amar, foi um alento e um soco no estômago.

O universo deste escritor, que recentemente completou 80 anos, me fascina e atrai. A beleza das histórias, o sentimento de otimismo que elas passam, servindo como um bálsamo para as durezas da vida e a sensação de leveza que fica após a conclusão de sua suas obras, tornam a vida melhor. A literatura tem este poder de nos transportar para lugares distantes onde vivem pensamentos que não estavam sendo pensados e idéias que esperam o nosso acesso. A boa literatura ajuda a viver e a entender melhor a vida, por extensão, a ser mais feliz.

7 comentários:

Anderson disse...

"Cem anos de solidão" é genial! E segundo o García Marquez foi inspirado, principamente no que tange a circularidade e a genealogia em "O tempo e o vento". Blz!!

Lya Flamel disse...

Com uma boa literatura, nunca ficamos sózinhos

cláudia q. disse...

Sempre concordei com o maravilhoso Caio F. que dizia que não tinha medo da velhice pois ele sempre teria seus livros e seus gatos!
Me identifico MUITO com isso...

Lord Sarubiano disse...

Muito bom "Cem Anos...".Infelizmente leio menos do que gostaria. Mas a leitura é fundamental. Criamos um mundo de imagens vívidas e mergulhamos na mente do autor. Demais.

Pandorix disse...

Leitora silenciosa de suas "cronicas", resolvi hoje manifestar-me. Saboreio suas palavras como quem saboreia um BOm beijo ....um raro prazer....um sopro de alento ao mesmo tempo que nos remete a dureza da vida e das palavras.
Encanto-me....arrependo-me....reflito...estilhaço-me..
tantas emoções.
Gosto...
Sema.

William Guedes Cezar disse...

Bah... adorei o texto principalmente o terceiro paragráfo... achei lindo e acho que se em caixa em muitas coisas... Hug's e até logo te cuida e comenta no meu!!!

Anônimo disse...

Os intectuais que me perdoem (sei que isso parecerá uma blasfêmia)mas o que vi em "Memórias de minhas putas tristes" foi um velho tarado morrendo de tesão por uma criança esfomeada que se prostitui pra sobreviver. Não há nada de romântico nisso...
Uma doce homenagem velada aos pedófilos. uma bela odes à tara por meninas que mal entraram na puberdade!

Ass. Angela Melo