quinta-feira, junho 21, 2007

O Kilimanjaro e a Saudade


Estava já há quase uma hora num vôo entre Nairóbi e Joanesburgo, quando o piloto anuncia que a esquerda do avião se pode ter uma vista privilegiada do monte Kimilanjaro. É a senha para os passageiros se amontoarem nestas áreas e disputem espaço nas janelas, munidos de suas câmeras fotográficas. O Kimilanjaro, que significa montanha branca no dialeto Masai, esta no norte da Tanzânia, junto à fronteira com o Quênia, e é o ponto mais alto da África com uma altitude de 5.895 m no Pico Uhuru. Este antigo vulcão com o topo coberto de neves eternas, ergue-se no meio de uma planície de savana, oferecendo um espectáculo único: entre as nuvens, o pico do monte aparece branco de neve e se ergue majestoso como um recado da África ao mundo. O momento é rápido, mas se multiplica nos inúmeros cliques e na troca de impressões entre os passageiros.

Descobrem que eu sou brasileiro e a conversa engata. Eles cheios de curiosidades sobre o Brasil, os hábitos, o clima, a política, o futebol. Eu querendo saber da vida no continente negro, do que eles sabiam do nosso país e um pouco mais da cultura africana para os comportamentos, os costumes, os relacionamentos, a vida em sociedade. E o assunto foi pro lado da saudade. Difícil para explicar em outro idioma, que não seja o português brasileiro, o significado profundo da palavra.

Sentir falta pode chegar perto, mas nem se iguala ao que saudade significa. É uma mistura de vontade de estar junto, voltar ao lugar, fazer o tempo andar para trás. É um desejo de que as coisas sejam diferentes, que os defeitos e problemas não mais existissem. Sentir saudade é como viajar na emoção permitindo que o pensamento seja invadido por lembranças, que a mente reviva o pretérito e até o corpo capta as sensações de calor, arrepios, risos solitários e lágrimas teimosas. Quando a saudade esta ligada a uma perda irreversível como a morte de alguém querido ela ganha uma proporção imensa, grande como as montanhas nevadas da África. Mas ficam as boas lembranças que servem para amenizar um pouco a dor da perda, tão difícil de ser elaborada.

No entanto quando a saudade é de uma condição que mudou, uma briga recente, um rompimento, algo agradável que acabou, uma perda grande, parece que a fica mais forte, pois esta situação não traz junto o irremediável que a ausência total ocasiona. Como pássaros barulhentos os pensamentos surgem em qualquer momento: no silêncio antes de dormir, no carro, numa fila de banco, dentro de um avião num vôo longo, do nada, quando menos se espera. A saudade surge e mostra sua face fazendo lembrar como era, como estará, no que pensa, como ficou. Será? Talvez? Quem Sabe?

Há oito mil metros de altura cruzando o continente africano eu falava e sentia saudade. Mas olhando as nuvens que envolviam o Kimilanjaro pensava que saudade, com jeito e sotaque brasileiro, é uma lembrança boa de coisas felizes. Não deve semear tristeza, mas ser portal de esperança de novos momentos, vividos na mesma intensidade ou continuamos com uma energia renovada.

4 comentários:

claudia q. disse...

Bela definição de saudade...
Beijos e...saudade!

Akio disse...

falou e disse

Alexandre Magno disse...

Quase sempre, saudade é a única certeza que tenho dos encontros com pessoas e lugares que a vida me apresenta.

Gostei da sua definição e relato e fiquei pensando, pensando do privilégio que é poder sentir saudades...

Fiquei com vontade de saber mais. Então, conte-nos mais da sua viagem a África. Vou vir aqui pelo menos uma vez por semana para cobrar..eheehe

abração no seu coração

MaxReinert disse...

... que dizer não é???... saudadeS!!!

... de tudo que eu ainda não ví!!!!