sábado, setembro 22, 2007

Tempos de Ventania Astral


Deve estar sobrando um vento astral muito forte destes que balança forte as árvores fazendo com que as raízes sejam testadas. Nas últimas semanas fiquei sabendo de seis casais que se separaram e depois lembrei de vários que tiveram crises, separações momentâneas e outros tantos que também desistiram do relacionamento no decorrer deste ano. Foram casais unidos pela lei e pelos rituais religiosos, gente que convivia junto há muito tempo, namorados com aparente intimidade, casais hetero e homo, de homens e mulheres, parentes, amigos, conhecidos, colegas, gente próxima que na maioria que me procurou para contar, dividir, comentar, lamentar. O vento passou forte e expôs a profundidade das raízes, balançou as copas, fez com que muitas folhas se soltassem e, em muitos casos, fez tombar o tronco que se mostrava forte.

Não sei se a capacidade humana de conviver e suportar está se diminuindo, tornando os relacionamentos mais vulneráveis à ação dos desgastes naturais que o tempo cria ou se as pessoas estão se exigindo, e dos outros, muito mais e acabam não se satisfazendo quando as coisas que estão longe da perfeição. Com certeza a idéia de construção de um plano de vida em comum, exige que se abra mão de muita coisa e se promova um esforço grande para combater o individualismo. Mas isto se torna mais difícil de ser alcançado principalmente quando vivemos numa sociedade que incentiva práticas individuais e egoístas em detrimento de ações comunitárias, solidárias ou vividas em conjunto. É só abrir qualquer jornal e revista e jorram mensagens de apelo competitivo transformando pessoas em cavalos de corrida. Isto sem falar do poder hipnótico da televisão que vende imagens de corpos bem desenhados, mas vazios de sentido num mundo do descartável.

Não acho nocivo viver sozinho, numa solidão construtiva e conhecedora. O ruim é quando esta prática acaba fechando a pessoa em si mesma, limitando seus horizontes, sua capacidade de reflexão e de troca e, por conseqüência, sua evolução. Mas também sou claro em afirmar que prefiro uma solidão individual a viver preso a uma solidão a dois numa gaiola de ouro. Nelson Rodrigues dizia que “uma boa solidão exige uma companhia muito boa”, acho que nunca tinha entendido esta frase até me dar conta desta onda de separações que estão acontecendo ao meu redor. A solidão que ele falava está relacionada ao respeito individual aos limites de cada um, sem querer fazer do outro uma extensão, nem torná-lo depositário demasiado de nossas expectativas e esperanças. Duas pessoas vivendo nesta solidão são certamente um para o outro uma boa companhia e, mais do que isto, uma boa parceria de vida.

Arrisco-me inclusive a dizer que uma boa solidão individual, que proporciona um enriquecimento e um conhecimento de possibilidades e limitações, é base para um relacionamento mais saudável entre duas pessoas. Infelizmente existem coisas que somente o tempo, com sua carga de experiências, possibilitam e no afã de estabelecer vínculos - e na ilusão de que isto vai acabar com nossas carências - acabamos atropelando o processo de conhecimento interior e o substituindo pela expectativa do que o outro pode nos dar.

O mesmo vento que leva para longe as folhas soltas também sacode as árvores fazendo com que os frutos, que estavam no alto e inacessível, caiam na terra para serem saboreados. Assim se conhece o doce sabor de uma fruta suculenta que o comodismo e preguiça impediam de ser acessado, arriscando a despencarem já passadas e podres no chão. Nestes tempos de ventania, que este “minuano astral” nos encontre enraizados fortemente para que, se o balanço for preciso, que ao menos não nos transforme em lenha e se a queda for inevitável que o dano seja o menor possível. O vento do início da primavera também traz o pólen das flores, as fertilizando e gerando novas flores que desabrocham no verão e novas árvores que, cuidadas, já se mostram frondosas nas próximas estações. O importante é que nossos jardins estejam sempre floridos e que nossas frutas estejam no ponto para serem colhidas.

2 comentários:

claudia q. disse...

Que lindo!
Concordo plenamente o que falas a respeito da "solidão"...
Quer casar comigo? hehehe!!!

Anônimo disse...

Perdão Claudia mas estou na frente, sou a primeira da fila, dou casa, comida, roupa lavada. mesada e mto carinho......rsrsrsrsrsrsrsrs.
Concordo com o texto. Este Senhor escreve muito bem. Vamos ser como o bambu, que se dobra, os galhos chegam ao chão mas não é arrancado da terra, nem morre. Na vida passamos por muitos minuanos. Mas continuamos a caminhada como o bambu.De pé, sem quebrar....
Agradeço diariamente ao Altissimo aqui estar viva, sem sofrer de solidão. Desligo telefones, fico ouvindo musica ou lendo um bom livro. As vezes me arrisco na cozinha e faço uma comida saborosa, monto uma bela mesa, uma musica linda uma roupa melhor ainda. Antes só do que mal acompanhado.
Faço minhas as suas palavras Liandro.
NAMASTÊ