quinta-feira, novembro 29, 2007

Especial RESENHA: Feriado de Mim Mesmo



“Abriu a torneira e molhou as próprias mãos.
Queria molhar o próprio rosto, mas não podia tocá-lo com suas mãos como estavam.
Queria se olhar no espelho para ver seu estado, mas estava quebrado.”



“Feriado de mim mesmo”, terceiro livro do escritor paulista Santiago Nazarian, prende o leitor pelo clima thriller e hermético, quase sufocante, em que o romance se desenrola. Ninguém chega à página final sem ser picado pelo estranhamento que emerge da narrativa, que exige uma dose a mais de reflexão.

Hermann Hesse, quando acrescentou uma nota ao final da obra “O lobo da estepe” alertou que escrevera aos 50 anos e que, portanto, o livro podia soar incompreensível aos leitores mais jovens, por tratar de problemas peculiares à idade. Aos 30 anos, Nazarian traz à tona questões conhecidas em qualquer idade, mas que, a cada novo acúmulo de vida, agregam elementos para uma nova leitura, fazendo surgir novos pontos de vista. A cada nova releitura, novas possibilidades acenam, impregnando os leitores com os tormentos do protagonista, – tormento de todos nós em alguma escala e em alguma ocasião.

Dividiria os dezoito capítulos em duas partes: na primeira, o autor apresenta a personalidade e a realidade do personagem principal através de diversas metáforas que se espalham pelo texto e se interligam. Na segunda parte, do capítulo 12 em diante, passa-se para ação, precedida por momentos de reflexão que deságuam em decisões e por momentos de realidade, nos seus variados matizes, mas embalados nas mesmas metáforas da primeira parte.

São diversas as formas metafóricas utilizadas pelo autor. Algumas se destacam e fornecem pistas sobre o desenrolar da narrativa, ajudando em seu entendimento. São constantes as referências à água nos primeiros capítulos, sobretudo no primeiro: gotas, pingos, chuva, torneira, chuveiro, etc. A fluidez da água, que corre sem ter forma e se adapta onde é colocada, “depois as coisas fluem”. Da água que precisa ser represada, exaurida, para não causar dano (“queriam fechar suas torneiras”) e que, quando se excede, deixa marcas de conflito e revolta como “roupas pingando encharcadas”.

No decorrer do livro, diversos outros líquidos ganham significado: vodca, suco, esperma e, por fim, sangue. – desenhando ora o curso disforme e adaptável do cotidiano do personagem, ora a exaustão que o faz sair de seu leito e transbordar. As mãos também ganham um forte significado no decorrer do texto. Não é à toa a imagem que ilustra a capa do livro, aliás, a própria mão do autor. Mãos carregadas, mãos que esfregam o rosto, que aquecem a vodca congelada, que se masturbam, transformando-se, num ato mecânico, em ferramentas de prazer e via de soluções. O terceiro elemento que aparece com destaque são os espelhos, os vidros como uma busca da identidade e uma certificação da continuidade de sua natureza, uma confirmação da felicidade, mesmo que ela “se espatife como uma garrafa”.

Outras figuras também aparecem na narrativa como indicativos: as janelas e a televisão que funciona como “janela do mundo” do personagem; a barata kafkaniana e clariceana, com o significado alegórico de alguém que perde as referências vendo seu cotidiano invadido por situações absurdas. Aproximar-se do inseto é um desafio para retornar ao estado primitivo e vencer o isolamento, mas isso o personagem não tem certeza se quer.

No que chamo de segunda parte, esses elementos crescem e se tornam decisivos no comportamento do personagem. O rapaz fluido e exausto, que usa as mãos como ferramenta de solução, depara-se com sua verdade: um invasor no seu espaço. A história que começa com peças mal resolvidas, que ele atribui à falta de memória, cresce e fica diferente dos livros infantis que traduz, no seu apartamento 107 (1+7 = 8, que deitado vira o símbolo de infinito: ∞).

É nesse ambiente, útero protetor e sem fim, que é gestada a vingança ao invasor “maior, mais cruel e definitiva”. Invasor que, além de rosto (que o protagonista pensa ser o seu próprio), tem nome e sobrenome: Thomas Schimidt – personagem que aparece em três livros da obra do autor. Isolado no mundo de fantasmas e espíritos, ele vai se tornando real, mas se apresenta num contexto de carinho, cuidado, fala de amor, faz-se presente. Chora quando o outro o manda embora, preocupa-se quando ele está sem comer, acompanha, atento, seus passos.
Schimidt (oito letras, como Nazarian) leva o personagem a uma cena de sexo, que é o único momento em que o protagonista não se debate e questiona, mas se entrega. No entanto, é a partir desse momento que o ódio pelo invasor cresce, e o personagem intensifica a vontade de “derrotar a parte fraca de sua personalidade”.
Qual seria essa parte fraca? A sexualidade, que está presente em todo o decorrer do livro. Logo no primeiro capítulo, a ex-namorada surge num devaneio muito distante, mas que o personagem teima em aproximar. Há a preocupação excessiva com a perda da masculinidade, pela barba que não cresce. A masturbação aparece como exercício físico sem rosto nem corpo, ou com ambos negados. A cena de sexo entre homens é uma das mais lindas do livro, mas quase que automaticamente gera uma reação de “sou macho e não tenho medo”. A negação da homossexualidade, aliás, está presente o tempo todo e se revela maior na parte final, quando pode ser injustamente indicada como a única causa dos transtornos do personagem, se relacionada à relação narcisista, competição, negação e inveja.

No capítulo 16, o personagem revela seu nome: Miguel. O único arcanjo, seis letras, como Thomas. Os elementos do início da narrativa voltam intensos. A fluidez dos líquidos, as mãos cortadas e anestesiadas pela dor – “nem sinto mais minhas mãos”. O espelho quebrado e o beijo vampiresco no sangue, sugando a vida na tentativa de que o outro sem vida viva dentro dele. Seria um arrependimento, um ato de egoísmo ou o corpo de um “sentimento masoquista”? Nessa parte, surge com veemência o que seria a segunda causa do comportamento de Miguel: o uso exagerado de drogas.Embora, durante todo o livro, a única droga que apareça com evidência seja a bebida, em algumas ocasiões, nos capítulos finais, o uso (genérico) de drogas surge como motivador. Um prato cheio para os psicanalistas e membros do movimento proibicionista.

No fundo, Miguel apenas quer ficar sozinho, livre de sua carga, de suas angústias e de cobranças. Quer transformar em “alívios” seus “pesadelos”, sem invasões, nem mesmo as invasões de cuidado. A vida urbana aproxima os distantes, mas também isola identidades. O isolamento é uma característica da urbanidade, mas, de acordo com Irvin Yalom, autor de “Quando Nietzsche Chorou”, o isolamento só existe no isolamento. Uma vez compartilhado, evapora.

Compartilhar, no entanto, é uma das dificuldades destes tempos. Santiago Nazarian nos leva para caminhos que esquecemos ou tentamos evitar, vias que falam da individualidade e do isolamento. Falar disso não é fácil, e explorar esses sentimentos é perturbador, – mas, desse estranhamento, nasce um conhecimento maior. Quando isso acontece, o escritor cumpre seu papel
.

5 comentários:

Anônimo disse...

Gostei do novo formato. Mas leve. Amo branco.Temporadas que me visto sempre com esta cor.
Li o seu artigo sobre Sartre e este, que inaugura a apresentação.
Como sempre escreves muito bem, sabes retratar fielmente os acontecimentos e tens uma imaginação fertil.
Sua fiel leitora
NAMASTE

claudia q. disse...

gostei do fundo branco...melhor de ler!
bela resenha, apontastes elementos que não tinha me dado conta na leitura do livro.apenas uma correção, até onde eu sei, é o 3º livro dele e não o 4º, como dissestes.
acho que deverias continuar com a publicação de algumas resenhas, afinal, és um leitor voraz e escreves muito bem!
beijão.

Santiago Nazarian disse...

Bela resenha, Liandro. Isso sim é que faz um autor se sentir recompensado. (embora, claro, tenha coisas lá que eu nem pensei, como a quantidade de letras nos nomes, haha). Não é uma resenha de apresentação do livro (aliás, quando ele foi lançado me lamentei muito disso, das resenhas entregarem demais a história, a solução final), mas como análise, principalmente agora que o livro foi lançado há um bom tempo, é ótimo. Fiquei feliz. Obrigado mesmo.

Rharry Belloti disse...

Ótimo post, já disse aqui que gosto muito dos seus textos?? Então repito.

Na conta! disse...

Compartilhar, no entanto, é uma das dificuldades destes tempos.

Frase verdadeirissima!