sábado, janeiro 19, 2008

Atravessando o deserto



Existem períodos em que a espera é a única solução. Quando as perdas inevitáveis nos obrigam a uma adaptação, e esta exige um tempo. Quando vivemos um sofrimento, mas que tem prazo para acabar como uma alta hospitalar, um pagamento atrasado ou uma separação momentânea de quem se gosta. Nestes tempos refletimos mais e passamos a conhecer nossos limites e nossas verdadeiras necessidades iniciando assim a construção de um novo momento. Estes momentos e suas influencias sobre nós eu chamo de tempo de deserto. É quando só o tempo vai resolver e esperar, e saber lidar com a ansiedade, é o caminho. Não é fácil, pois a tendência de querer queimar etapas é grande em todos nós. Esperar e se preparar para quando acontecer exige, mas amadurece.

Nestes momentos os objetivos se tornam mais claros, e o que é superficial fica de lado. O que está nas profundezas vem à tona e se vê o real valor das coisas. No silêncio interior que a gente se ouve. Os sentimentos ruins vão se desmanchando, e a realidade decanta, ficando somente o que é importante. As tempestades de areia não deixam de surgirem ameaçadoras, tentando nos fazer desviar do objetivo, mas também neste tempo que as esperanças se renovam. Quando se inicia esta travessia não se sabe ao certo o que nos espera no final, mas a certeza de que será algo bem melhor é presente, pois temos este propósito.

Quem atravessa o deserto, seja num leito hospitalar, numa cela de prisão, numa conexão atrasada ou em casa, mesmo, esperando o caminhar lento dos dias, tem a oportunidade de descobrir as raízes dos problemas. Aquilo que sufoca muitas vezes se esconde em detalhes e se apresenta em formas superficiais de comportamento. O mais importante fica escondido entre a fumaça do cotidiano. No tempo de deserto a fumaça se dissipa e é possível ver as coisas com mais realidade, inclusive às de real importância.

A dor não diminui. Ela continua apertando e insistindo. Surge nos momentos que menos se espera. Mas com o andar ela se torna uma companheira mais compreensiva, podemos olhá-la, com os olhos ainda marejados, mas de forma menos revoltada. Pois sabemos que em breve ela se transformará. Em variados momentos da vida todos passamos pelo deserto de nós mesmos. Ao nosso redor a vida continua andando, mas o recolhimento surge mais importante. As lembranças dos bons momentos ficam mais presentes, e as mágoas perdem o sentido quando olhadas pela perspectiva do tempo. É como a lembrança de um passeio que fizemos há muito tempo a terras distantes, fica a recordação só do que foi bom. Quase somem da memória os percalços.


No andar os passos vãos ficando marcados nas areias desenhando a trilha que percorremos, de um extremo a outro. Não chegaremos os mesmos na outra margem e a tentação de sentar no caminho, de se iludir com miragens ou se encantar com oásis será grande. No tempo do deserto vencer estas barreiras também faz parte do caminhar e isto nos ajuda a valorizar a nova realidade que há de vir, pois ela depende somente de nós mesmos. É uma caminhada solitária, mas frutífera, cujo lema a ser repetido é “sigo o meu caminho”.

11 comentários:

Lucas disse...

Olá...

Bonita metáfora! Eu gostei bastante do jeito inteligente que você a explorou, foi muito criativo, foi uma abordagem bem legal mesmo.

Quando se está hospitalizado e não se pode nem virar na cama, por causa da dor, é que se começa realmente a dar valor a essas coisas tão pequenas que parecem tão estúpidas. Poder dormir de lado, então, passa a ser a coisa mais importante do mundo... Enfim, é muito mais do que isso... Nós nos esquecemos de muitas coisas na bagunça da rotina.

Infelizmente o homem só aprende quando bate a cabeça na parede.



abraços,
lucas

http://almabebada.blogspot.com

claudia q. disse...

fizestes uma bela "homenagem" a Saturno...tempo, paciência, amadurecimento, solidão...grandes aprendizados!
belo post!grande beijo.

Guerras Secretas disse...

A morte nos coloca pra atravessar desertos tb, como você mesmo disse, tempos em que só esperar e ter paciência resolvem. É difícil, mas é o tipo de provação pela qual todos nós passamos. Basta não esquecer que mesmo no deserto mais desolado e quente, a noite vem o vento e o céu estrelado, e nas estrelas podemos encontrar a saída de qualquer deserto.

CapinaremosRH@gmail.com (Zanfa) disse...

Gostei, ótima relação que você fez.

Notei que o blog é relativamente novo, espera que cresça e tenha sucesso!

Dedinhos Nervosos disse...

Andei de blog em blog e tive a feliz surpresa de parar aqui. Amei o texto. A parte mais difícil quando estou nessa jornada é a irresistível vontade de procurar miragens. Sim, procurar. Mas estou melhorando.
Sucesso com seu blog.
Beijos.

Robson Soda disse...

Oi, gostei de seu blog

se pudesse,quando tiver tempo, postar algum texto no meu adoraria.

se der relaciona os links ai.

espero sua resposta,abração.

GATOS QUENTES [vips]
http://gatosquentesvip.blogspot.com/

SEM disse...

Faz muito tempo que estou no Tempo de Deserto. Há uma réstia de esperança que lá fora, na saída, tem alguém com um copo de limonada para aplacar a minha sede. Mas sei que é ilusão provocada pelo calor, no meu deserto não há oásis. Terei eu mesmo que colher meus limões e fazer a minha limonada. Mas isso também é legal, é bom...
Beijos!
Ricardo

Geminiana Doce disse...

GOSTEI MUITO DOS TEUS TEXTOS...
fui ler seu perfil e ví que és geminiano como eu....
Vou linkar seu blog no meu pra sempre dá uma passada aqui...
Bjos e luz

Eduardo Peret disse...

Eu estive no deserto por um período bem comprido, recentemente. Agora creio ter achado um oásis pra me sustentar. Excelente texto, como sempre! Parabéns!

maxwell disse...

parabens pelo texto. Concordo com muitas cisas que voce disse. Sofremos em momentos dificeis, porem eles nos transformam, nos renovam, nos fazem pessoas melhores, mais maduras. Atraves desses momentos, descobrimos nossos limites, nossos objetivos e nossas reais necessidades. A dor, com certeza, e felizmente, se transforma, se abranda e no final ficam as boas lembrancas e o que nos tornamos apos ela. Esse e o processo de evolucao do ser humano. Parabens!!

Bode disse...

Muito bom ler esse seu texto, ainda mais no momento que estou passando. Obrigado por escreve tão boas palavras... Fique feliz de que hoje você fez um desconhecido mais tranquilo e feliz.

um abraço