quinta-feira, março 06, 2008

Sobre a mágoa

Uso freqüentemente a imagem de que a mágoa é como tinta vermelha dentro da água: quanto maior a quantidade de água, mais rápido ela diluí. No caso, a água significa o tempo. Quanto mais ele passa, mais as mágoas se tornam menores, até o ponto de ficarem insignificantes, quem sabe sumir. Diferentemente da raiva, que corrói, e do ressentimento, que é adubado constantemente, a mágoa é a fase final do enfrentamento ou aceitação de uma dor. Não machuca, não incomoda, não paralisa, mas está ali, presente. Tentamos ignorá-la nos afogando em trabalho, diversão, aventuras – mas, quando menos se espera, ela ataca. Surge na memória, em uma referência correlata qualquer, no silêncio antes de dormir.E mostra ainda seu tom, embora cada dia mais desbotado.



Do caminho para a superação de uma perda, vencer a mágoa é o passo mais lento, mesmo que seja o derradeiro. Primeiro, vence-se a raiva, que é o sentimento que lembra nosso lado animal. O gorila que dorme dentro de cada um de nós acorda e sai rebelado pelo mundo, expondo seus sentimentos e, com impulsividade primata, resolvendo as coisas de forma bárbara. Passado esse tempo de animalidade, caímos, saciados, esgotados e, não raro, arrependidos. Depois, enfrenta-se o ressentimento, quando se decide que não vale mais a pena continuar incentivando vinganças e provocações, já que o tempo não pára e seguir adiante é preciso. Aqui, treina-se o desapego e se valoriza o positivo que ficou. O carinho ganha força, e um entendimento grande do conjunto se destaca. Vencidos esses dois monstros, convive-se ainda, por um longo tempo, com o fantasma da mágoa.



Conviver com a mágoa não impede de continuar vivendo. Afinal, existem necessidades a serem sanadas e obrigações que batem à nossa porta. A mágoa está longe da depressão que amarra e da vontade de atirar longe as peças de uma história sem ver onde caíram os cacos. Lidar com esse sentimento como algo transitório é uma forma, mesmo desconhecendo quanto tempo sua sombra nos acompanhará. Alguns preferem congelar as mágoas, conservando-as como quem guarda um pernil que será consumido aos pedaços e alimenta o rancor, o ego ferido, a vaidade. Outros preferem deixa-lá fora de qualquer câmara refrigerada, esperando sua decomposição diária até o mau cheiro aparecer. Duro é quando a mágoa guardada se transforma em mais mágoa, ampliando-se e dominando o cotidiano.


Na parte inicial do Livro das Mágoas, de Florbela Espanca – chamado Este Livro – a poetisa o dedica aos desgraçados “que no mundo passais, chorai ao lê-lo” e aos “abençoados os que o sentirem, sem ser bom nem belo”. Os sentimentos que a mágoa me despertam são muito parecidos com esses versos da escritora portuguesa. Primeiro, a sensação de desgraça, de ver tudo sem saída, de sentir o gosto amargo da decepção, traição, surpresa negativa. Nessa fase, a tinta ainda está concentrada e forte, e isso impede um distanciamento para analisar os fatos com mais precisão. Com o tempo – e o aumento da quantidade de água –, o que é ruim vai se diluindo: vermelho sangue, vermelho escuro, vermelho laranja, cereja, rubi, violeta fraco, vinho aguado. Nessa fase, chega-se à benção do sentir, mesmo que tudo não tenha se tornado bom, apesar de nem tudo ter ficado belo.

14 comentários:

Euzer Lopes disse...

Rapaz, que texto maravilhoso.
Queria tê-lo lido algumas vezes quando mais precisei.
Parabéns!

Mayna disse...

Ótimo texto! Conseguiu descrever perfeitamente, esse sentimento, que não nos faz bem.

http://maynabuco.blogspot.com

Anônimo disse...

Não creio que a magoa seja toda ruim como qualquer sentimente temos saber vive-lo e aprender com o que se passou tendo a magoa como
um lampejo da grande luz de erros do passado,mesmo que não sejam nossos

Markoso Lima disse...

Mágoa é um sentimento estranho mesmo! Pura consequência de uma decepção.
Adorei a analogia com o vermelho na água. Até porque vermelho lembra sangue, lembra ódio, lembra rancor: a fase precedente da tão falada mágoa!!

Abraços
http://senhor-do-tempo.blogspot.com/

Meerstempel Badist disse...

Muito bom o texto.
Existe uma pessoa que fala comigo por um erro meu do passado, ela não esquece até os dias atuais. Eu já pedi perdão, mas ela não me perdoa, tem seus motivo para isso, acredito que seja raiva então e não mágoa como eu imaginava.

Anônimo disse...

Gostei muito do texto e tu escreve muito bem cara, parabens.

eu conhecia a escritora como Florbela Espanca, seria a mesma?Quem está errado?

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http://geradordeimprobabilidade.blogspot.com/

blog disse...

Comecei a ler o texto imaginando que ele trataria o óbvio - enganei-me.
E Florbela realmente entendia de mágoa, tanto que, agustiada até a medula, matou-se.

Só discordo quando vc afirma que a mágoa é algo transitório.
Pode ser.
Abraço.

Anônimo disse...

Nossa, Liandro!!! Rapaz tu me surpreendes post a post, sabia?!
Adoro ler teus textos!!! ;-)

Todo o sentimento desconfortável provoca o LUTO, que, via de regra, é uma fase transitória e passa pelas fases (nesta ordem): NEGAÇÃO, RAIVA, BARGANHA E ACEITAÇÃO. O mesmo passa a ser patológico quando se prolonga por um tempo maior do que o esperado, impedindo a pessoa de seguir a vida em frente.

Discordo também que a mágoa seja um sentimento sempre transitório. Ao meu ver, o que ocorre é que passamos a ter uma ACEITAÇÃO da mesma. Mas ela fica lá, guardada, muitas vezes, para sempre dentro de nós. Podem se passar muitos anos; mas de repente, quando a gente menos espera, ela volta de forma intensa, arrebatadora e cruel, como se o fator causador de todo o estresse tivesse acontecido dias, ou no máximo, semanas atrás.
O que realmente faz a diferença é realmente saber e dominar a arte de "pegar o limão e fazer uma limonada", como se diz coloquialmente.

Em suma, haja água para diluir tanta tinta, né?

Abração, Liandro!!! Bom domingo, querido =D

Veronica disse...

Ola, adoreiiiiiiiii o texto... Interessante a maneira como vc escreve. E o tempo faz verdadeiros milagres!!! abs

http://elacorderosa.blogspot.com

MaxReinert disse...

Olá querido.... um dos textos mais concisos e precisos que já lí por aqui!

"Queria tê-lo lido algumas vezes quando mais precisei." [2]...

Concordo e assino embaixo!

Thxxx

RICARDO AGUIEIRAS disse...

Infelizmente, poucos, muito poucos conseguem chegar à fase do "vinho aguado. Param bem antes.
E o ser humano é um ser político, impossível não guardar mágoas de Bush, de Garrastazu Médici ou do homofóbico que matou um homossexual, é pedir muito e não estou fazendo Concurso Público para Santo...
Um belo mês de março para você!
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br

Anônimo disse...

Incrivel... ler algo sobre um sentimento diário, comum e simples... Tao simples que vivemos num mundo de mágoa, aliás,navegamos num mar dela.
Ricardo Rodrigues

Mariana disse...

Gostei muito do texto. Vim por recomendação do "Pqueno inventário de impropriedades". Estou linkando para voltar mais vezes....

bjs

ingrid disse...

Nooossa... Amei o texto gostaria de saber se foi vc msm q fez? E se foi, gostaria de saber se vc pode me dar uma ajudinha em um trabalho?? Desde já agradeço!!! Meu msn >>> ingrid-leitzke@hotmail.com