sábado, março 15, 2008

Medo se ser feliz


Relendo outro dia trechos do Caminho de Swann, de Marcel Proust (que meu bairrismo gaúcho me incita a dizer que a tradução foi de Mário Quintana), encontrei esta pérola: “Quando subia para me deitar, meu único consolo era que mamãe viria beijar-me na cama. Mas tão pouco durava aquilo, tão depressa descia ela, que o momento em que a ouvia subir a escada e quando passava pelo corredor da porta dupla o leve frêmito de seu vestido de jardim, de musselina branca, com pequenos frestões de palha trançada, era para mim um momento doloroso. Anunciava aquele que viria depois, em que ela me deixaria, voltando para baixo.” Brilhante fragmento que tantas reflexões possibilita, e nos transforma todos em crianças medrosas de viver o prazer do (re)encontro pela certeza que ele vai acabar, ou pelo fantasma de que ele não seja duradouro o suficiente.

Notem que no texto o trauma da criança é diário. Desde a primeira vez quando a mãe foi se despedir e, após isto, desceu as escadas o deixando, o sentimento doloroso da despedida já o acompanha, mesmo que no dia seguinte ela retorne. Quantas vezes nos deparamos com situações que poderiam nos trazer algum tipo de alegria, experiência e prazer, mas o medo da separação paralisa e impede que estes belos momentos se realizem. Esquecemos que a finitude é da condição humana, assim como o reiniciar após cada um destes finais e perdemos oportunidades de crescimento. Deixamos de conhecer lugares diferentes, pelo “medo” de não suportarmos o exotismo, desistimos de provar pratos com temperos diferenciados para não arriscar o inusitado, evitamos conhecer gente que nos desperta a atenção porque não nos achamos preparados o suficiente. Enquanto isto as oportunidades passam e a preparação ideal nunca chega.

A idealização excessiva e o medo do fim são as principais pragas dos relacionamentos humanos. Temos a tendência de achar que precisamos ser perfeitos para nos permitirmos e que os outros tem que viver a plenitude da perfeição para serem dignos de estar conosco. Desde pequenos transformamos os pais em super-heróis, depois os professores, os amigos, os namorados e as namoradas. Mas a vida, implacável e realista, acaba exibindo o arsenal de defeitos de todos e mostrando as nossas mais escondidas características, as que tentamos ocultar. Sofremos com a separação dos pais nos primeiros dias de aula, sofremos o fim do curso e a separação dos amigos, a troca de emprego, a troca de cidade. Mas penamos mais com o desenlace dos relacionamentos e nos tornamos, em tempos variáveis, crianças medrosas. Basta alguém subir a escada do nosso ego para nos beijar, se aproximar mais do nosso casulo, bater na porta do isolamento que a dor de uma possível separação, mesmo que distante, já nos assola e impede de viver este momento que pode ser ínfimo, mas também infinito.


Proust, judeu e canceriano apegado na figura da mãe, se utiliza desta imagem para desenhar o desafio de se permitir tentar, de atravessar a ponte perigosa, de viver sem pensar no amanhã. Se o final de tudo é inevitável, que pelo menos o período anterior ao derradeiro seja proveitoso e divertido. Quem sabe assim o fim demore a chegar e o fantasma da despedida vá desbotando até se tornar algo tão transparente que não nos ameace mais. Ao invés do pânico do descer da escada, a alegria por estar subindo. Menos aflição pelo momento que acaba e mais atenção ao que dura. Diminuir o
excesso de proteção que nos aprisiona numa bolha de segurança e ousar ir além do óbvio, enfrentando as inseguranças, encarando o medo, optando pela vida mesmo com as contrariedades existentes nela. Ou no dizer do libriano Vinícius de Moraes, que tudo “seja infinito enquanto dure.”

14 comentários:

Thiago Borges disse...

Texto muito bom ^^
Parabéns

*Eu li mesmo, antes que pensem que eu sou um dos cretinos da blogsfera que só comenta "legal"*

SUHAHUSAHUSUHASHUAUSH

abs

http://canseidesercult.blogspot.com

jessy disse...

Lindo post; reflexão. Acho que o mais difícil é mudar, deixar o medo de lado.Diria até impossivel em alguns casos...

Fabiano Telles disse...

Tenho q imprimir o seu blog, aquilo la eh uma enciclopédia da alma humana!!!!!! Bom final de semana! Abracao pra ti!

Flavitcho disse...

Querer algo novo é sempre um tanto arriscado, isso afasta a gente de certas experiências.
Boa reflexão. =]

Valeu.

Fernanda Miranda disse...

Muito bom o texto. Certa vez em uma aula de psicologia, a professora explicou que o primeiro sentimento de perda do ser humano vem aproximadamente com 8 meses de vida. Isso mesmo! Antes disso, o bebê acha q ele e a mãe são um só. Mas à partir desta idade, vê a mãe como outro ser e toda vez que ela se afasta, acha q vai perdê-la pra sempre e por isso faz escândalos absurdos. Se a mãe não trabalha bem com a criança que ela vai em tal lugar e já volta (mesmo no caso das mães q trabalham fora), futuramente, este "inofensivo" afastamento, pode resultar traumas e até mesmo Síndrome do Pânico.

Adorei o blog!
Obrigada pela visita ao meu.
Bjos
Fernanda (COTIDIANO ATIVO)

Antonoly disse...

Tenho uma coisa em comum com Proust, também sou Judeu, mas infelizmente não tenho o mesmo dom que ele.
Um abraço!

www.blogonauta1.wordpress.com

Carlos César disse...

O que dizer desse texto? Que mais uma vez parece escrito pra mim? Seria redundante,repetitivo ate pretensionso mais uma vez.
Mas o que acontece comigo e com muitos é que sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.
A felicidade é algo tão relativo que as vezes passamos a vida toda procurando por ela e ela está bem do nosso lado, ao nosso alcance.
Espero nao ter que passar a vida toda a procurar.E que eu seja capaz de reconhece-la e encontra-la qndo estiver ao meu lado.
Pra nao perder a minha linha teologica: que Deus nos faça feliz!!!
Abraço

Vanessa disse...

Nossa...
quantas vezes eu penso isso, vivo com essa situação diariamente
deixo de viver certas coisas porque sei que elas um dia vao acabar e a ideia de fim ainda nãoé tao aceitavel pra mim.
é,a gente tem medo de ser feliz, de colocar a cara, de conferir...
amei o texto,de verdade
me fez refletir bastantee!
abraço

Larissa Bohnenberger disse...

Caí aqui através do Pequeno Inventário de Impropriedades. Gostei muito do blog e já linkei-o!
Lindo o texto. Não podemos deixar os traumas e as perdas impedir-nos de viver tudo o que há de maravilhoso pelo mundo! A famosa frase de Vinícios é 100% verdadeira!
Beijos!

Marcelo Temoteo disse...

Durante a vida escolhemos nossos amantes e amores, pautados muitas vezes em nosso desejo de resgatar em outro alguém o tão sonhado amor incondicional que se traduz na área da ilusão, como a mais pura e verdadeira forma de amar, o único e verdadeiro amor.

Usando este momento do desenvolvimento emocional de todos nós como referência,o qual você citou durante os primeiros meses de vida, podemos entender algumas formas de relação que continuam seguindo esse padrão, onde uma das partes por exemplo insiste em não acreditar que pode existir sem o outro; são os amores passionais onde mistura emocional e imaturidade afetiva ainda são entendidos ou traduzidos como amor.

Trazemos dentro de nós uma necessidade nata de completude que se torna preenchida num primeiro momento de nossa existência por esse amor materno.
Muitos adultos em busca desse amor perfeito, muitas vezes se perdem quando acreditam que amor é sinônimo de anulação, quando confundem liberdade com desrespeito, intimidade com invasão, quando usam de chantagem emocional para suprir suas carências; e ainda quando deixam de viver seus outros papéis na vida: mulher, homem, profissional, filho(a), por exemplo, para “ser” exclusivamente em função do outro.

Algumas pessoas entendem o amor como algo quase mágico que mistura uma certa “santidade /pureza” com a total e plena devoção ao outro e eu diria que estão presas ao mito do amor “uterino”. São relações que muitas vezes exigem um raio-X dos pensamentos e sentimentos, desejam, necessitam dos detalhes sobre os pensamentos e sentimentos do outro, um verdadeiro relatório contínuo e absoluto sem pulos, desvios ou mesmo titubeios sobre tudo que passa em sua mente, algo tão impossível racionalmente que geralmente só é confessado entre quatro paredes. Esse tipo de relação traz sofrimento e dor para ambos, parte de um entendimento equivocado onde amor é sinônimo de mistura e individualidade é sinônimo de desamor e traição.

O bebê só agüenta a frustração do afastamento momentâneo da mãe, quando tem dentro de si a segurança e a confiança de que ela não o abandonará e de que ele conseguirá sobreviver sem ela naquele momento.

Portanto, como nosso próprio desenvolvimento emocional nos ensina, o “amor perfeito”, ou melhor dizendo o “amor saudável”, recusa a auto-anulação, propõe a existência, a individualidade, o respeito ao outro, a solidariedade, o companheirismo, e a confiança mútua.
Então, amemos!!!

Marcelo Temoteo - Psicólogo

Igor disse...

É um texto muito bonito! Cara, vc é muito contundente nas coisas que escreve. É, de fato, um ensaio que com certeza atingirá quem o ler, de uma forma ou de outra... Porque fala sobre medo. E todo mundo tem medo.

Ah sim, caí aqui por acaso. Os ventos da blogosfera são sempre tão imprevisíveis... rsrsrsrs

Chapolin disse...

Olá! Gostei de seus textos, muito bonitos e reflexivos!
Parabéns.
Abraços. Ane Raffaele.

www.maria_escadinha.weblogger.com.br

O Destro & O Canhoto disse...

Belo texto.
Idéias muito bem colocadas e que me fizeram pensar muito nisso de "idealização excessiva" e "medo do fim". Por inúmeras vezes em minha vida me deparei com isso. Recentemente, inclusive, vivi uma em que a aflição do término me impediu, muitas vezes, de aproveitar os bons momentos...como realmente deveria ser. Sabotar a felicidade é mais comum do que imaginamos.
Mas a gente aprende, né? Graças!!!
Parabéns pelo blog!
Um abraço
O Canhoto

Ricardo Aguieiras disse...

Putz! Como é que fica um leitor ateu e cético ao ler o seu blog? Um leitor que não acredita em horóscopos e em nenhuma forma de esoterismo? Deve ser execrado?
Por que as pessoas todas, TODAS, partem sempre do pressuposto de que temos a obrigação de acreditar em alguma coisa? Sabiam que a gente pode ser muito feliz e duvidar? Aliás, não houvesse a dúvida, não haveria Proust...
Papo de horóscopo me lembra a revista Capricho... e olham para gente como se a gente fosse um marciano, um ET por não acreditar...
E muito pior que a mãe de Proust, que ao menos o beija e vai embora para voltar no dia seguinte, é a mãe que não beija seu filho nunca, por puro nojo dele e horror por que o filho ou a filha é homossexual.
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br