sábado, maio 31, 2008

O Homem Perfeito


Minha amiga vasculha sites de relacionamento, páginas de revistas, salas de bate papo em busca de um relacionamento. Ela é bonita, jovem, independente e inteligente, mas sofre do mal da exigência. Nunca nenhum homem é suficientemente bom para ela. Ou alto demais, ou franco demais, ou não suficientemente estudado ou viajado. Tem aqueles com quem ela até saí uma vez, depois de períodos prévios de conversa virtual, mas não gosta porque fumam, ou do jeito de beijar, de tocar, de olhar. Têm outros que ela chega a ir para a cama, mas após devorar preenche sua ficha mental de avaliação e na soma dos pontos descobre que não alcançam à média. E assim segue ela na sua busca implacável do homem perfeito, uma raça superior que une gentileza, emoção na medida certa, carinhos na hora exata além de maturidade, cultura, boa aparência, fidelidade total e boa figura ao seu lado. Suas costas já doem por tantas horas perdidas na internet, seus olhos ressacam e seus punhos cansam. Mas lá esta ela comparando idades com peso, formação com número de viagens internacionais, gostos e disposição sexual. O filme “PS Eu te Amo” tem uma versão da minha amiga, em cenas rápidas e paralelas a historia principal, mas igualmente significativas. Uma mulher se aproxima de vários homens numa festa e faz três perguntas numa avaliação direta: “Você é gay? Você é casado? Você trabalha?” Se responde não para as duas primeiras e sim para a última ganha um beijo na boca, como teste final. Mesmo assim se ela não gostar vira as costas e saí sem dizer nada.

Enquanto se procura perfeição nos outros, há o risco de se esquecer de buscar evolução e melhoramento em nós mesmos, transformando nosso comportamento em mero chamariz sem qualquer base sólida. Personagens feitos para atrair um tipo específico a fim de avaliá-lo, no quesito perfeição, e depois descartá-lo ou aproveitá-lo ao máximo enquanto durar o encanto. Como um sorvete que tem que ser consumido rápido senão derrete. O ideal do amor romântico é o grande culpado pela criação da ilusão do homem perfeito. Sempre tem uma Julieta atrás de um Romeu querendo amor eterno entre dois seres perfeitos, mas existe também o lado obscuro deste amor que é a impossibilidade de se consumar, de continuar. Talvez obscuro não seja a melhor palavra, porque esta característica esta presente neste tipo de relacionamento, faz parte dele como um elemento de sua constituição. E fica até difícil imaginar Romeu chegando do trabalho cansado, pensando na amante, e Julieta vendo a novela com dor de cabeça pensando numa separação em que tenha vantagens.

As fantasias do amor romântico levam a crer que existe uma pessoa “certa” para cada um de nós, com que viveremos a exclusividade de sentimentos, interesses e desejos para sempre. Somos condicionados a acreditar que só se ama uma pessoa por vez e que se este “ser amado” (coitado) não estiver sempre conosco a vida perde a graça. Das histórias contadas na infância da “Branca de Neve”, “Cinderela”, “Rapunzel” e outros, passando pelas grandes óperas e chegando aos folhetins eletrônicos das tele novelas todas assumem este estereótipo. Os defeitos das pessoas, as coisas que nos incomodam, as diferenças são justamente o ponto de maior busca de equilíbrio nos relacionamentos, ali que cada um avalia a capacidade de suportar o que esta incomodando e, por outro lado, a possibilidade de controlar o que pesa para o outro até se chegar num meio termo de convivência. As diferenças servem também para ser ponto de união.


Ninguém é espelho de ninguém e buscar (às vezes exigir) perfeição dos outros é de uma injustiça tamanha principalmente quando quem exige não possui estes elementos de perfeição tão procurados. E a pessoa amada recebe nas suas costas todas as nossas projeções da forma como gostaríamos que ela fosse até mesmo da forma como nós mesmos gostaríamos de ser. A carga pesa e nem ombros malhados e fortes são capazes de suportar o peso. Desde pequeno recebemos esta receita pronta que nos enfiam goela abaixo não abrindo possibilidade para discutir e pára propor outra forma relacionamento que não esteja baseado nesta prisioneira idéia. Minha amiga segue suas noites de procura e de avaliação, não se dá conta que criou uma espécie de cela que vai além do seu quarto com computador. Suas grades ocupam seu agir e pensar, seu mover e falar. Ela vive sobre o domínio de uma expectativa difícil de se cumprir e atrás de metas quase inalcançáveis. Esquece ela que ao desligar a máquina e olhar para si descobriria ali, não à perfeição que sempre busca, mas, a medida para se exigir e tolerar talvez assim alcançando um ideal mais real que pode ser vivido com um pouco de felicidade.

7 comentários:

Mariana disse...

Salas de bate papo e sites de relacionamento são quase uma tentação para pessoas que buscam homens ou mulehres perfeitas.

virtualmente todo mundo pode ser o que quiser.

e ai ficamos a mercê do não-toque...

trocando o real e doloridamente imperfeito pelo virtual magicamente e intocavelmente perfeito.

triste.

bjs

Carlos César disse...

Eu não acredito no par ou amor perfeito porque não existe. Aliás, existe nos contos de fadas,filmes, novelas, mas na vida real não.
O que de fato existe é a pessoal ideal, o par ideal. Que vc soma as qualidades, subtrai os defeitos e no fim das contas, vc chega a conclusao que vale a pena ficar com tal pessoa.
A realidade hj é que o dialogo pessoal foi trocado pelo diálogo via internet, onde cada um finge ser o que não é, e assim cria máscaras, alimenta ilusões, disfarça e esquiva-se da verdade que liberta.
Parabens pelo texto. Foi escrito tendo como pano de fundo sua amiga, mas seu amigo aqui sentiu instrumento desse mesmo texto,ainda que em partes.

Patrício disse...

Hmmmm, eu acho que não existe pessoa perfeita, todo mundo tem suas qualidades e seus defeitos. Acredito que a pessoa ideal para um relacionamento é aquela que junta as qualidades que mais gostamos com os defeitos que mais suportamos.

claudia q. disse...

onde achastes esta minha foto sentada em um banco? hahaha...
não acredito em perfeição de espécie alguma!
adorei o texto!
grande beijo e até muito breve!

Larissa Bohnenberger disse...

Incrível, como tudo o que você escreve!

"Minha amiga vasculha sites de relacionamento, páginas de revistas, salas de bate papo em busca de um relacionamento".
As pessoas só deixarão de frustrar-se quando se derem conta de que a busca de um relacionamento não é a resposta. Um relacionamento a dois é conseqüencia de algo mais importante que tem que acontecer antes: a atração, que gera a paixão, que gera o amor. Todas estas análises racionais poderiam até resultar no encontro do 'par perfeito', caso este existisse, mas não é isso que nos vincula a outra pessoa. O que nos fincula aos outros é o sentimento, e este independe de qualquer razão.

Lendo a história desta sua amiga, lembrei-me do outro extremo: aquelas pessoas tão desesperadas por terem alguém do seu lado, com um pavor da solidão tão grande, que moldam em suas mentes a perfeição em cima da primeira pessoa imperfeita que lhes aparece. Determinam que aquela pessoa tem que ser sua alma gêmea, e passa a enxergar-lhe somente as qualidades. Às vezes algumas que nem ao menos possua.

Bjs!

Jaques Jesus disse...

Liandro, a sua amiga...
Mesmo que sonhar com esse grande homem seja um sonho, é essencial procurá-lo, para eliminar o vazio não ter esse sonho... não esqueça que sonhos acontecem contra nossa vontade, sem que tenhamos controle algum... mas realizá-los depende de uma ação... Tá. É preciso pensar pequeno (num homem comum) para chegar a algo grande (um homem que amamos como ele é). Por isso, vai ver que a gente que parar de procurar o norte da nossa paixão... e começar procurar o sul dela! Uma reflexão na periferia de Brasília, de um solitário numa fria de Lua Cheia, Lua de São Jorge, de São João, de Oxóssi...

Carlos Gomes disse...

DESABAFO... (Experiência própria...)
Eu por ironia do destino não acreditava, até que foi preciso me envolver e "acreditar", tolo eu em me levar por emoções e sentimentos, fui verdadeiro, único e transparente... Me decepcionei muito...
Agora acredito de fato que não existem e até que nunca existiram pessoas perfeitas, que nasceram uma para outra...
Apostei minhas fichas e perdi...
Os frutos de minha ilusão me deixam grandes chagas na vida...
: (
Não sei se tenho a coragem de tentar me entregar, talvez seja melhor criar uma grande barreira e me "proteger" de "relacionamentos perfeitos"...
Liandro parabéns pelo texto...
Abraços...
; )