sábado, maio 10, 2008

Amor silencioso e amor silenciado


Esperei chegar à tranqüilidade de minha casa para ler o último conto do recente livro de Lya Luft. Entre duas viagens de avião devorei as histórias que giram em torno da incomunicabilidade ou de dificuldade de comunicação entre pessoas que se amam. “O silêncio dos amantes” é uma sucessão de relatos de pessoas ligadas pelos laços de família ou dos sentimentos que se vêem em situações limites onde a necessidade de expressão é grande, mas a incapacidade disto é maior. Nas 20 narrativas temas difíceis como morte, rejeição, abandono, suicídio, frustração e vingança são tratados de forma sensível, sem exagero ou pieguice. Todas têm em comum a dedicação que o amor alicerça encarando o vazio da falta de retorno, das decisões egoístas, do individualismo. No último capítulo a autora semeia a esperança ao contar um episódio duro e cheio de dor, mas que teve seu alento através do silêncio cúmplice que se torna igualmente causa de união, estas são, no dizer da autora, “zonas de segredo necessárias”.

Existe ainda preconceito contra a literatura de Lya Luft, principalmente após sua contratação como articulista da Revista Veja. A patrulha de plantão considera a revista como a bíblia da “direita conservadora” e a ida da autora pra lá foi erroneamente entendida como uma adesão a esta corrente. Lamentável que a imaturidade política continue criando cercas de separação e fogueiras de condenação a artistas deste quilate. Quem conhece o universo da escritora, que há quase 30 anos tem uma produção notável, sabe que sua obra não se enquadra nesta avaliação mesquinha que nos dias de hoje soa como obsoleto. O tema deste último livro é algo da mais verdadeira atualidade: as pessoas não sabem mais dizer que se amam, ou expressar este sentimento em forma de atos de compreensão, paciência e dedicação. Isto não se restringe apenas a casais e aos pares românticos, mas se estende aos laços familiares de pais e filhos, geracionais ou até de amizade. De certa forma a patrulha sobre sua obra é também uma representação da dificuldade de comunicação dos que optam pelo radicalismo e pela busca de idéias ilusoriamente puras e assim caem nos monólogos e no imobilismo.


De todas as dores que o livro trás muitas me chamam a atenção e algumas chegaram a me incomodar. O filho suicida, a mãe alcoólatra, o pai violento, a avó massacrada pelo alzeheimer, a dor da vergonha, da decepção, do abandono tudo isto tendo como personagens pessoas que se amam, mas que, por causa destes problemas, não conseguem viver este sentimento, principalmente de forma comunicacional e relacional. O silencio é o grande elemento presente em todo livro, passeando entre os capítulos e histórias, ele aparece de duas formas: como presença maléfica e amarga e como convivência benéfica e companheira, conseqüência da intimidade cultivada. Quantas vezes na vida real preferimos silenciar o nosso sentimento, consumidos pelo cotidiano, pela timidez ou pela valoração de coisas tão pequenas desprezando o acontecimento raro e grandioso do amor. Nossos pequenos vícios acabam por consumir como ferrugem a grande armação do sentimento, ameaçando ruir toda a estrutura por conta da ação danosas destes pequenos elementos.

Mas por outro lado, e o último capítulo lindamente se debruça sobre isto, existe o silencio que é resultado de uma relação que evoluiu para a intimidade. Ali as palavras têm sentido menor, pois no olhar, nos gestos, na compreensão da necessidade do espaço individual e no respeito a este que a relação se desenvolve. Mesmo quando as cicatrizes de dores pretéritas e fantasmas insistentes batem à porta dos amantes, que buscam em pensamentos diversos, repostas para sofrimentos vividos, o consolo vem na presença companheira que entende estas dores e no silêncio que não cobra, não exige, não provoca, mas na sua presença conforta e acolhe. A simples existência desta presença já serve de conforto e acolhida amenizando o que provoca o sofrimento. Há uma diferença entre o sentimento silenciado no barulho dos problemas, mas que existe ali em estado desnutrido e carente e o que age silencioso, mas presente escondido em gestos de carinhos e atenção. Em todas estas situações o amor existe sobre diversas formas respondendo sempre as nossas reações, maravilhosas ou vergonhosas, nada, portanto mais humano e nada mais representativo desta condição de humanidade imperfeita e em evolução.

9 comentários:

Everaldo Ygor disse...

Olá...
Liandro...
Faz tempo que não aporto por aqui, para apreciar suas linhas...
Sua resenha é instigante, e Lya Luft continua a sensibilizar os leitores de forma mais intensa ainda, forte demais - como deve Ser... As dores, as angustias, são elas, elementos para a bela composição de Lya...
Vou ler em seguida...
Abraços
Everaldo Ygor
Visite:
http://outrasandancas.blogspot.com/

Euzer Lopes disse...

Olha, sinceramente, eu acho que a leitura de Lya na Veja, semanalmente, para mim que sou assinante, é uma injeção de vitamina na veia. Eu sinto uma força grande em seus textos.
Só fui conhecê-la na revista e, confesso, virei fã de carteirinha!

Thaíssa Vasconcelos disse...

Interessante esse tema, o silencio permeia as relações onde reina o vício, vício um no outro.

A intimidade vem se transformando, não somos mais de fato íntimos, mas viciados, o que acaba por nos calar.

Riku disse...

Gostei muito do seu texto...
Eu acho que uma causa direta das pessoas não saberem expressar o seu amor por alguém ou algo é que esse amor está se escassiando... É algo realmente triste, mas está se tornando mais difícil ver amor verdadeiro no mundo e isso se deve a um fechamento das pessoas para a pureza do verdadeiro amor...

MaxReinert disse...

Pois.... difícil entender, em cada relação, o que é benéfico e o que é fuga... o silêncio pode ser lido como ausência, assim como, compreensão profunda do outro!

De qualquer forma... é um sintoma de algo e, só por isso, deve ser olhado com calma e tranquilidade para poder compreender e causar (ou não) reações necessárias...

Difícil equação essa das relações!

Gosto muito do que escreve Lya tbm... e, com certeza, seja de direita ou esquerda, vale a pena lê-la, sempre!

Thaíssa Vasconcelos disse...

Comentei aqui acredito que ontem, mas voltando e fazendo uma releitura do post, me dou conta que eu sempre gostei do que li da Lya na Veja, mas nunca, li algo comente dela, e na íntegra, esse livro vai ficar na minha lista.

Feliciano Silva disse...

vou pesquisar este livro e a autora

o foda que na minha cidade é difici achar livro de imediato é só por encomenda


abraço!!

claudia q. disse...

que texto mais sensível!me senti acariciando pétalas de rosas...lindo!te lendo gosto ainda mais de ti!
também gosto da Lya Luft.
beijão.

Jaques Jesus disse...

Liandro,

O tempo é favorável para você, que tem muita sorte. Aproveite este estímulo para realizar grandes coisas. Você tem força.

Quanto ao cinismo que falamos, seja sempre sincero em suas intenções, assim jamais terá culpa se tiver de tergiversar ou omitir, em prol de algo maior.

Persevera! Avança! Seja firme! Você pode, tem calma e, com isso, penetra gradualmente nos espaços. Acredita nisso. Use suas virtudes para melhorar os costumes do nosso povo. Esse é seu destino!

Abraços acochados!