sábado, maio 03, 2008

Vaí uma ervinha aí?


Quem costuma ver ao seriado “Weeds” (erva em inglês), que no Brasil vai ao ar pela GNT já em terceira temporada, já conhece as imagens de abertura que mostram o inicio de dia num subúrbio americano com as casas iguais, gente correndo na rua com as mesmas camisetas brancas, bonés e bermudas. Crianças disciplinadas descendo do ônibus escola com uniformes e mochilas idênticas, num mesmo passo e postura. Homens de calça escura e camisas claras, entrando e saindo de um café, carros iguaizinhos circulando pelas ruas numa mesmice de fazer doer os olhos. Tudo padronizando e pasteurizado como se fossem a mesma coisa, ou uma sucessão de imitações uns dos outros. A música de abertura de Weeds: "Little Boxes", composta e gravada por Malvina Reynolds em 1962 é uma crítica a sociedade americana que afirma que as pessoas perdem sua individualidade e costumam seguir um padrão que supostamente deve ser igual para todos, vivendo em pequenas caixas. Outro elemento que salta aos olhos neste seriado é a hipocrisia presente nos diversos segmentos que compõe o universo dos personagens. Escola, família, relações afetivas, familiares e de amizades, trabalho e negócios se apresentam na maioria de forma superficial e sempre com a ótica do interesse. Por baixo desta superficialidade, sem precisar sacudi-la muito, aparece a verdade do vício bem nutrido, das traições planejadas, das vinganças saboreadas e das frustrações escondidas no porão da personalidade.


Revendo os DVDs da primeira temporada fiquei pensando que estes fenômenos de padrononização e hipocrisia são cada vez mais presentes em nossa sociedade, inclusive nos pequenos grupos chamados minoritários e mesmo nos grupos que se dizem alternativos. Ver isto no grosso da sociedade é muito fácil. Uma ida ao café da esquina já revela roupas iguais, gestos idênticos, falas muito parecida. Uma reunião de irmãos gêmeos em cada quadra, bar, em cada festa ou grupo reunido. A cultura de massa favorece o crescimento destes grupos idênticos, os agrega na medida em que a novidade do momento é lançada e os repagina a cada nova invenção. A personalidade destas comunidades siamesas tem a duração do último lançamento na telinha ou da posição das paradas de sucesso, tirando isto muito pouco fica. Mas falar disto já é chover no molhado.

O que me espanta é a massificação dentro de grupos que levantam bandeiras alternativas. Certamente a falta de paradigmas para enfrentar o comum é algo desafiador, mas ao mesmo tempo são nestas oportunidades que deveriam se forjar novas formas de viver e pensar. Enquanto isto não acontece o mais fácil é reproduzir os mesmos discursos que foram combatidos quando se era vítima deles. Na África ví por diversas vezes, negros que tinha ganhado alguma ascensão social e reproduziam sobre seus irmãos de cor o mesmo tratamento grosseiro de que eram alvos. Conheço diversos casais homossexuais que repetem os erros dos casais hetero, imitando papéis de submissão e comando, de hierarquia e de aparência, num modelo já falido. Isto sem falar dos políticos que pregam a ética quando estão fora do poder, mas são os primeiros a se render as benesses e facilidades que a posição favorece, quando ocupam a cadeira de comando e ganham à chave do cofre.


A trama do seriado gira em torno de uma mulher que viúva e sem recursos, tem que sustentar dois filhos pequenos e um status que exige muitas notas verdes. O tráfico
surge como uma alternativa viável, embora arriscada: “eu não sou uma traficante, sou uma mãe que vende produtos ilegais, numa padaria fajuta.” Mas à medida que os clientes vão se ampliando, aparece também a verdade escondida embaixo da capa de famílias perfeitas, maridos ideais, esposas zelosas e crianças angelicais. A erva serve como forma de trazer a tona o que fica escondido no cotidiano padronizado desta comunidade. Fico imaginando os discursos da opinião pública conservadora quando assistiu algum episódio: enfáticas falas religiosas de perseguição, contrariando a base de toda a doutrina e condenações veementes contra as drogas em mesas cheias de garrafas com cinzeiros entupidos de tocos de cigarro. A hipocrisia aumenta na mesma intensidade que cresce o consumo de drogas e estas tem o poder de revelar quem realmente somos, sem máscaras. Viver na falsidade do perfeito cansa e a fuga interna para o nosso verdadeiro eu, é uma viagem ótima, mas no retorno os mesmos conceitos e discursos são repetidos embora o interior fique ansiando por uma outra oportunidade de desatar as correntes e vagar inteiro sem meias verdades e sem falsas crenças.

6 comentários:

Aline Dias disse...

boa dica, mas infelizmente n�o tenho tv a cabo.
=/

www.literaturaboteco.blogspot.com

Pk disse...

kem tem seda???
http://mundodepk.blogspot.com/

Clei disse...

:( nao tenho tv por assinatura por isso não acompanho a serie :( mais pelo que vc descreve parece ser bem massa shauhsau uma mulher vendendo maconha em uma padaria kk a serie deve ter um ton meio humoristico misturado a realidade..ao menos ela nao esta se prostituindo ou coisa do tipo hsauhuau e essa imagem é bem louca kk mcaconha plantada em uma banheira hsaushaus

MaxReinert disse...

Rapaz... vc tocou num ponto que pra mim é chave nessa história: a facilidade com que as minórias saem reproduzindo os padrões já estabelecidos... ou, como acabam exercendo um preconceito inverso sobre determinadas questões!

disse...

nossa mto bom seu texto!!!
Nos faz prestar atenção em certas coisas q passam despercebidas no dia a dia.
Pena q não tenho tv por assinatura...
bjo

Euzer Lopes disse...

Num dos posts do meu blog eu chamo minha cidade de "fogão de seis bocas", onde em cada boca eu coloco uma panela. Quando vc fala em padronização de costumes, é mais ou menos isso. Se vc faz arroz, naquela panela todos os ingredientes são para deixar TODOS OS GRÃOS DE ARROZ idênticos ao ficar prontos: macios, soltinhos, salgados na medida certa. Assim como o feijão na panela ao lado, o bife na frigideira colocada na outra boca e por aí vai.
Enfim, não importam os ingredientes, o final, tudo ficará com o mesmo gosto.