segunda-feira, setembro 15, 2008

Fantasmas






Vi outro dia uma chamada na TV que Jose Wilker estará na próxima novela das 19h fazendo um fantasma que reaparece para ser encosto da ex-esposa a quem abandonou antes de morrer. Há 32 anos o mesmo Wilker viveu na telona o malandro Vadinho, em Dona Flor e Seus Dois Maridos, que após aprontar muito para cima da esposa também acaba retornando para assombrá-la. Além dos dois fantasmas serem interpretados pelo mesmo ator existe outra coincidência na trama: a atração que as viúvas sentem pelo falecido mesmo depois de terem enfrentado toda a sorte de traições, problemas e dissabores. Certamente esta atração das esposas que mantêm os espíritos errantes dos falecidos maridos, malandros, mas calientes, perto das ainda encarnadas. Cada um de nós possui um time de fantasmas que se alimentam de nossa energia e nos assombram, habitando a casa da nossa existência, gastando o tempo a arrastar correntes, sorrir sarcasticamente sobre nossos ombros nos espelhos e vagar pelos corredores nas madrugadas silenciosas.

No seu clássico “O Fantasma de Canterville” Oscar Wilde, mostra com sarcasmo e fina ironia como os pragmáticos americanos combatiam o fantasma de 300 anos que habitavam o seu novo lar. No castelo uma mancha de sangue- símbolo de um assassinato ali cometido- jaz no assoalho há anos sem solução, mas um produto eficiente de limpeza consegue retirá-lo, depois passam lubrificante nas correntes que rangem tentando assustá-los e por fim criam um boneco maior e mais horrendo que o fantasma que leva um susto acaba caindo pela chaminé. Com o tempo o fantasma passa a andar devagar e escondido pela casa, como medo de levar outro susto dos americanos. Desolado encontra compaixão na filha dos americanos e acaba por se libertar, deixando livre também os moradores de sua assombração.

Estes dois fatos, que em comum só tem a presença destes seres, ilustram perfeitamente as atitudes que tomamos em relação aos fantasmas de nossas vidas. Pessoas que foram importantes, mas que perderam sua presença e continuam a nos rondar, relações mal resolvidas, paixões que nunca saíram do platônico e ex-amores que hoje despertam outros sentimentos menos nobres. A energia que faz com que estas almas penadas continuem a nos atormentar é fornecida por nós mesmos que, envolvidos na ilusão de uma mudança ou na saudade de coisas boas, acabamos por esquecer o preço que os momentos bons exigiam. Assim agia Dona Flor ao sentir falta do ímpeto sexual do falecido, esquecia as violências e humilhações a que era submetida. E assim age a personagem da novela das 19h diminuindo o fato do abandono que passou enquanto o marido era vivo.

Os fantasmas que nos assombram souberam pegar no ponto mais fraco de nossa estrutura, oferecendo cuidados momentâneos, intensidade de carinhos e atenção por instantes deixando a boca ávida por beber desta fonte. Em troca receberam nossa atenção a ponto de elevá-los a patamares que não mereciam, pois, não raro, os bons momentos desapareciam quando o êxtase passava e o espaço reservado continuidades ficou vazio. A intensidade tem o poder dos fogos de artifícios que explodem grandiosos proporcionando momentos de rara beleza, mas passados estes instantes fugazes nada mais resta do que a vontade ilusória de repeti-los e a crua verdade de sua impossibilidade. Deste espetáculo duas figuras ganham destaque por seus papéis fundamentais: o inocente que acredita na ilusão vendida e o esperto que contabiliza na lista de suas conquistas um anel de ouro a mais. Não falo da paixão arrebatadora que premeia alguns com instantes que ganham a grandiosidade do eterno enquanto duram, me refiro à sedução barata que vende jóias falsas cujo quilate baixo só se revela no dia seguinte.

Wilde apresenta a solução no pragmatismo indicando este caminho para fugir das armadilhas que estes fantasmas criam. Primeiro resolver de forma rápida as marcas deixadas, em geral recados velados para chamar a atenção, depois erguer a bandeira da auto-estima a fim de assustar a careta fantasmagórica que tenta se mostrar mais importante e por fim exercitar a compaixão como forma de libertação de ambos, sem vinganças, sem reincidências, sem magoas. Fantasmas da insegurança, da solidão, do medo do risco, ectoplasmas da mágoa, almas penadas de ilusão da perfeição, da fala melosa e da solução para todos os problemas. Uma plêiade destes seres nos ronda cotidianamente e enfrentá-los é o primeiro passo para nos liberar da energia que os mantém e deixar que eles possam seguir seu caminho talvez evoluindo para uma esfera melhor, talvez procurando outros para assombrar na próxima esquina.

2 comentários:

OM NAMAH SHIVAYA disse...

De profundis

Helton disse...

Quando a gente se liberta de um "fantasma" desses, sobra mais energia pra investir em nós mesmos, em novas relaçoes e na vida em geral. Dar uma "exorcizada" de vez em quando, elaborar antigos lutos mal resolvidos, faz muito bem para a alma que passa a vagar mais leve...