quarta-feira, dezembro 16, 2009

Eu tomei Daime.











Poucas experiencias me foram tão intensas na vida como as que vivenciei recentemente provando o Daime. Já tinha lido sobre, ouvido depoimentos e assistido vídeos. Mas beber do liquido resultante da junção de plantas da região amazonica foi uma experiência impressionante, principalmente no contexto em que ele é administrado que, para mim, auxiliou para que os objetivos fossem alcancados. A principal missão do Daime é levar a pessoa a experimentações de auto-conhecimento e de reflexão. Tive três experiências em situações diferentes e três reações bem distintas o que comprova que, apesar da ritualistica ser coletiva, o contato com o mundo psicológico e espiritual proporcionado é uma experiencia individual. Já haviam me oferecido outras oportunidades de prová-lo, mas resolvi esperar um tempo e vir a Rio Branco, no Acre, onde o Daime nasceu, para conhecer de perto desta filosofia religiosa baseada na união de práticas espirituais, administração do produto e vivência comunitária.




PRIMEIRA VEZ: RESIGNIFICAR E LIBERTAR

A primeira experiência foi na casa chamada "Barquinha da Madrinha Chica", que fica na Vila Ivonete em Rio Branco, próximo a outras duas casas também chamadas barquinhas. A madrinha, uma senhora com 80 anos e dez filhos, comanda uma legião que se agrupa ao redor do culto. Naquele dia o ritual misturava a distribuição do Daime, cantos religiosos e atendimento por entidades da linha de preto velho. Mesmo integradas cada atividade é independente e ninguém é obrigado a participar de todas as etapas. Num salão homens e mulheres sentam separados, no centro uma mesa com 13 lugares onde na cabeceira senta a madrinha. Depois de provar a bebida, que achei com gosto de uva verde, sentei e prestei a atenção na candêcia dos cantos de linguagem simples. Todos tem estrofes que são repetidas várias vezes, o que torna possível decorar a letra e acompanhar. Cantam-se os santos, a Virgem Maria, Deus Pai e Jesus Cristo alternandos com orações como Pai Nosso, Ave Maria, Salve Rainha e Creio em Deus Pai.

Quinze minutos depois de tomar a bebida sinto um calor grande nas mãos, que sobe pelos braços, até que sinto os ombros pesados e um torpor me invade o corpo. Fecho os olhos e minha viagem começa. Como em sonhos sinto alguém pegando minhas mãos e me dizendo: “Vem comigo." Eu retruco perguntando "quem é. " Em seguida imagens de mandalas e caleidoscópios se alterman. Novamente a cena se repete: “Vem comigo, confia” a voz diz. Eu reluto e pergunto novamente quem é, e mais imagens coloridas me envolvem a mente. Pela terceira vez a voz feminina me chama a acompanhá-la e eu não resisto e aceito.

Entao revejo diversas situações de minha vida, muitas das quais eu achei que tivesse esquecido. Lembro de brigas do tempo de escola, de discussões, de medos sofridos, de desilusões e as vivências ganham novo desfecho, com uma reação diferente de minha parte. Se antes eu apanhava de um colega de aula, agora eu que batia, se antes eu ficava com medo diante de alguma circunstância agora eu a enfrentava. Se antes eu escondia a raiva que uma mágoa me causou, agora eu a externava. Depois de repassar diversas situações, algumas recentes inclusive, e voz disse que eu preciso me libertar disto e pergunta se estou disposto. Reluto um pouco mas aceito, e ela se despede em seguida, apesar da minha insistência para que ela fique, vai embora dizedo “Eu te daria um alô as vezes”, e se afasta.

O efeito dura em torno de duas horas e meia, sendo que na primeira meia hora é como uma preparação e na última como uma conclusão. Durante uma hora e meia a miração ( o efeito ) surge de forma intensa e marcante.



SEGUNDA VEZ: ENTENDER O PRESENTE E SUAS CONTRADIÇÕES

No segundo dia retornamos a mesma casa. O dia é de Sta Luzia e uma comemoração vai acontecer. Durante o dia a madrinha comanda uma maratona de orações, são mil Ave Maria recitadas no mesmo salão de ontem. Finalizado esta fase as pessoas gradativamente vão passando para uma área grande coberta e delimitada por um pequeno muro No centro uma estrela de cinco pontas desenhada. Aos poucos vão chegando mais pessoas, de todas as idades, a maioria usando branco ou camisetas com estampas de santos. Os músicos se posicionam numa das extremidades do local, além de violão, maracás, pandeiros e outros instrumentos de percussão se destacam os atabaques que ocupam lugar de relevância na frente. Após orações iniciam os cantos e as pessoas são convidadas a se serviram do Daime.

No mesmo local de ontem um filtro de barro guarda a bebida servida em pequenos copos de plástico e insegira com cuidado e devoção. A maioria dos cantos estao ligados a umbanda brasileira saudando caboclos, preto velhos, orixás, encantados e outros seres. Se forma um círculo onde as pessoas dancam em sentido horario, em fila, primeiro as mulheres e depois os homens. Na medida em que a noite avança e alguns repetem a dose do Daime, a música parece ficar mais intensa e muitos dos que estao “bailando”( assim que chama) ficam influenciados e se colocam no centro do salãoo, junto a estrela de cinco pontos.

Primeiramente tímido não quis bailar mas na medida em que fui sentindo o efeito do Daime, me dispos a circular junto dos outros e senti o corpo aos poucos soltando, principalmente os bracos e tronco em movimento ritmado. Ninguém estava me notando, nem avaliando meus passos o que me deu maior tranquilidade. Mas não durou muito esta atitude e eu sentei numa cadeira e fiquei apreciando as pessoas e ouvindo a música.

De repente senti meu olhar desviado para a porta e me deu a nítida impressão que estava em uma festa qualquer, um balada, um baile, um carnaval onde as pessoas dancavam e bebiam, paqueravam e se olhavam. Depois fechei os olhos e parecia que dentro de mim duas forças duelavam. De um lado o mundo material me chamando, mostrando as vaidades, as coisificações, os sentimentos de uso e desuso das pessoas entre sí, a seduçãoo, o poder do sexo, da beleza física e do dinheiro. De outro o mundo espiritual me chamando para ir além disto mostrando os valores que se escondem além da aparência, do exibicionismo e da forma de compra e venda. Sofri um pouco me dividindo entre estas realidades até que, quando o canto era para Oxum, senti uma forca suave, mas grande, me envolvendo, deixando todo o meu corpo quente como que me banhando, até que se concentrou em minhas mãos um calor intenso que foi se diluindo lentamente.


TERCEIRA VEZ: ENTENDER AS DIFICULDADES E ALERTAR PARA SUA SUPERAÇÃO

A última experiência foi a mais difícil de todas. Era comemoração do nascimento do mestre Irineu, o fundador do Daime. O cenário maior da comemoração era numa zona distante da cidade, perto do Alto Santo, centro fundado por Irineu e onde esta o seu túmulo. Lá esta, em ampla área de terras, o local hoje dirigido por sua viúva cujo acesso só é permitido aos iniciados. Próximo dali outras três casas também comemoram a data entre cantos, danças, rojões, vivas e, claro, distribuição do Daime. Chegamos cedo ao centro do Seu Zé, que nos recebe com atenção e carinho. Depois da oração do terço, com as letras originais alteradas para a realidade daimística, as pessoas vão chegando e os membros vem nos cumprimentar, agradecendo a visita e sendo muito atenciosos. Aos poucos vão se formando trêss filas de mulheres de um lado do salão e três de homens do outro. Todos usam branco. Os homens em geral calca, paletó e gravata preta, As mulheres saia e blusa branca com detalhes em verde e na cabeça um tipo de tiara. Os músicos se posicionam num dos lados e no outro ficam os jovens adolescentes e crianças. Na cabeceira uma cadeira vazia simboliza a presença do aniversariante falecido. Os acordes são intensos e todos cantam animadamente os hinos, e dancam continuamente, em geral num ritmo de tres passos pra um lado e tres para outro. O Daime continua sendo servido durante o bailado, que intercaka músicas conhecidas pelos participantes entoadas a pleno pulmões.

Os que não estão “fardados” também podem bailar deste que ocupem lugar na última fileira e este movimento dura quatro horas e após um intervalo mais quatro. A quantidade que me foi servida aparece ser maior do que a dos outros dois dias. Resolvo não bailar, fico sentado e o mesmo calor traditional me invade. Mas desta vez a sensação que vem nao é das melhores. Uma sensacao de mal estar me invade, vontade de sair dali, de raiva, de insatisfação. Tudo me irrita. Vejo um casal jovem, que parecem ser casados ou namorados, conversando e sinto uma raiva enorme. Vontade de esganar os dois. Fico assustado com estes sentimentos e resolvo lavar o rosto. Chegando no banheiro o mal estar aumenta e vomito muito.Volto pro meu lugar e o bailado e a música parecem ficar mais intensos. Tento me concentrar mas as imagens de mandalas parecem travar, ao contrário do outro dia em que eram dinâmicas e em movimento.

Fecho os olhos e na minha cabeça ecoa o som dos instrumentos, agora num ritmo de valsa. Me vejo valsando com uma mulher de vermelho que esconde o rosto com um véu. Depois estamos eu e ela discurindo numa queda de braco. Forte eu fico incisivo nos meus argumentos sobre meu modo de ser e de agir, e no fim afirmo que sou feliz assim, mas já de uma forma mais carinhosa como quem fala com alguem próximo. Ela diz que aceita mas que eu preciso me cuidar mais, que até aqui ela estava me protegendo mas que preciso fazer mais minha parte. Depois segue uma preleção sobre as paixões fugazes, cujo remédio, segundo ela, é a luz da realidade. “Paixoes são como sorvete: saborosos mas devem ser consumidos rápido e no escuro, a luz acaba por derrete-los e alterar seu sabor.”ensina. Terminada esta frase fico prestando atenção nas canções e pelas coreografias.

Todos parecem estar envolvidos naquela realidade há muito tempo e se integram perfeitamente nos ritmos, cadêcias, letras e seqüências. Vez por outra fecho os olhos e me deixo envolver no ambiente colhendo frutos desta oportunidade, como crianca que é acariciada por quem ama. O cansaço me envolve demais e acabo saindo do trabalho perto da meia-noite, quase no final da primeira parte, e já sem o efeito do Daime.

Retorno para minha vida cotidiana e urbana, para as tarefas do dia a dia revirogado, mais experiente e, principalmente, me conhecendo mais após estas vivências tao intensas vividas na capital do Acre. Não pretendo me transformar num daimista, nem fazer uso corriqueiro da bebida, o que arrisca em vulgarizá-la, mas com ceretza ao longo da vida voltarei outras vezes ao Norte para avaliações e correções de rota na minha caminhada, através destes elementos da natureza e de todo o envolvimento espiritual que ele possibilita e conecta. Fiquei mais maduro, mais humano e, com certeza, muito melhor.



Agradecimentos a Bruno Gomes, companheiro nesta jornada, e a Marcelo Simão, pesquisador, que foi nosso "guia local".

8 comentários:

Helton disse...

Muito interessante, em especial, a voz da primeira parte que te chama para acompanhá-la; na terceira parte, mesmo você dizendo que foi desagradável, parece que mesmo assim tirou grande proveito. Muito proveitosa sua "viagem"

Claudia disse...

relato emocionante........viajei nele!!!

Dennys Reys disse...

“Paixoes são como sorvete: saborosos mas devem ser consumidos rápido e no escuro, a luz acaba por derrete-los e alterar seu sabor.”

Um bom ensinamento este do soverte. Ele nos leva a refletir as contradições, proibições e opisições.

Nunca pensei que você pudesse fazer essa "viagem" a lugares distantes da realidade cotidiana e do consciente. Parabéns!!!

Há horas que o melhor é entrar mata a dentro, megulhar mar afora e caminhar por trilhas desconhecidas. Só assim nos conheceremos melhor.

Miguel Eibel disse...

Boa tarde!
Vivendo é que se aprende !
E tendo coragem é que se perde o medo!
Parabéns pelo blog!

http://migueleibel.blogspot.com

Fabio disse...

oi irmao.ki esperiencia em,a casa da dona chica fica aki bem berto da minha casa.e minha armã freguenta lá no zé.também passei uns apuros lá tbm,mas agente sempre volta.o daime q vc tomou vai acompanha-lo onde vc for,e quando vc volta ele lefara outro convite e vc nao azitarar em aceitar o vonvite.um abraço.

Alex França disse...

Olá belesinha, adoro seu site, e tomei a liberdade de coloca-lo como site indicados no meu site...
Um grande abraço,
Alex França...
meu site: www.alexfranca.com

Guga Rebouças disse...

Gostei desse relato gonzo do Daime.
E também gostei da forma como encarou toda a experiência.
Só mesmo experimentando e encarando tudo isso com a mente bem aberta para entender o que toda essa "filosofia da mata" tem a nos mostrar.

;)

Anônimo disse...

ola amigo, li seu relato e queria dizer que o Santo Daime é assim, misterioso, ensinador e acima de tudo é amor. estes momentos que vc vivenciou tenho certeza vao te acompanhar por muito tempo e tenha certeza que vc vai voltar e tomar novamente esta bebida que eu diria magica, maravilhosa.eu tomo o Santo Daime e te digo cada vez é melhor em minha vida.