quarta-feira, outubro 21, 2009

“ Nem o pó…”


Diz à lenda que quando Carlota Joaquina retornou a Portugal, depois de tantos anos no Brasil, antes de entrar no navio que a conduziria pelo oceano mirou o Rio de Janeiro e bateu os pés dizendo que de nosso país nem a poeira queria levar. Sempre me lembrava deste episódio, e cada vez esta imagem foi ficando mais forte na minha memória à medida que os meus dias em Brasília estavam chegando ao fim. Tive muita dificuldade para me adaptar à capital da Republica. O transito difícil, os preços altos, o calor insuportável, a secura terrível. No primeiro ano fiquei dois meses tossindo e acabei tendo uma alergia que me obrigou a médicos e remédios. Além disto, o padrão da cidade é muito caro, em certos aspectos muito superiores a São Paulo e ao Rio. E a falta de uma cultura local própria, pelo pouco tempo de vida da cidade e pela mistura de gente de todo o pais também foi me incomodando.

Mas aos poucos eu fui descobrindo o que a cidade esconde entre uma coisa e outra. Os bares diferentes, os lugares especiais, os restaurantes variados. Vi a vida pela ótica do cerrado, pelos parques, pelo lago. Aprendi pontos de vistas diferentes e vivi coisas que nunca tinha vivido nos meus quase cinco anos de Brasília. Há uma vida que emerge dos gabinetes quando o sol se esconde e esta falta de luz ao invés de encobrir acaba por revelar. E nestas quebradas que conheci muita gente interessante e amiga que levarei para sempre na memória e no coração. Lógico que a síndrome de capital impregna tudo o que se passa por lá. Em cada mesa de bar uma autoridade, ou se sentindo como, exibindo suas credenciais: diretor disto, superintendente daquilo, secretario de tal embaixada, engenheiro chefe de tal autarquia, gerente de tal setor. O acumulo de gente “importante” por metro quadrado acaba criando mais muros do que aproximando.


Mas estas credenciais são utilizadas para vencer a insegurança de uma terra estranha. La éramos todos estrangeiros atravessando o deserto em busca de um Oásis. Na medida em que o conhecimento ia aumentando e as armas eram baixadas o ser humano se revelava. Um tipo diferente que mistura de sotaques e modos de ser, mas ainda com uma cultura em desenvolvimento. O abismo social da cidade é impressionante e se revela sutil em atitudes de preconceito: no plano a classe média, no lago os ricos, os pobres no entorno do plano piloto. As cidades satélites, parte que mais cresce, ainda são vistas com narizes torcidos pela burguesia, muito mais brega do que os novos ricos da Barra da Tijuca. Mas eu sempre preferi os excluídos e diferentes e sempre desprezei os deslumbrados com a ilusão de pseudopoder. Esta atitude que me levou a sobreviver e, mais do que isto, a descobrir riquezas onde menos se esperava.

Lembrarei sempre de Brasília como um tempo de transição. Um período da vida em que cresci pessoal e profissionalmente, em que aprendi a valorizar as boas amizades, a conhecer mais o ser humano com suas coisas belas e com toda a sua perversidade. Esta fase terminou e não sei se um dia voltarei a morar lá, mas se voltar já terei acumulado conhecimento suficiente para saber encontrar na cidade a parte boa e a melhor parte são justamente as pessoas. Demorei em descobrir isto. Ficava reclamando das dificuldades e só fui me abrir para possibilidade bem mais tarde. Há um espírito de vontade de aprender em cada olhar, uma vontade de troca em cada fala, uma esperança de possibilidade em cada investida. A terra do poder, e de seus podres, também tem espírito carente, que nem o excesso de trabalho e as tensões políticas conseguem sublimar.

Não saio maldizendo a cidade, nem juro que nunca mais vou voltar. Saio sorrindo carregando o acumulo das minhas experiências. O ar inicial de provisoriedade que pairava em minha estadia foi se cristalizando ao longo do tempo e o acumulo revelou já um laço formado, mesmo que eu negasse sua existência. Chegou o tempo de um novo passo e uma nova realidade a ser conquistada e desbravada. Novos desafios, novos horizontes, novas conquistas. Agora sempre que ouvir no noticiário alguma referencia a Brasília, lembrarei de um tempo em que fui feliz e cujos frutos levarei para sempre. O principal exercício deste tempo foi o de colher. Colhi oportunidades onde se plantou esforço, colhi amizades onde se semeou dedicação, colhi experiências onde se investiu coragem. Sofri a distancia das pessoas que mais amo, mas aprendi a valorizá-las por outros ângulos e torná-las próximas apesar dos quilômetros que nos separam, aprendi a tecer novas teias. Chegou o tempo de dizer adeus a capital da Republica, mas não um adeus definitivo, pelo contrario, uma despedida com cheiro de ate breve e já com a cor da saudade.

3 comentários:

Carlos César disse...

A vida é um arranjo de chegadas e partidas. O seu até breve é uma despedida consoladora. Das conversas que tivemos, dos cafés que tomamos, tudo isso soa como saudade. Desejo sucesso nessa sua nova morada.
Paz e Benção

Claudia disse...

Sorte nessa fase que se inicia...tu merece TUDO DE BOM!!!
Ficou gracinha a cara nova do blog, mais jovial......kkkkkkk!!!!!!!
Bjooooooooo

Guga Rebouças disse...

"Há uma vida que emerge dos gabinetes quando o sol se esconde e esta falta de luz ao invés de encobrir acaba por revelar."

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