domingo, junho 13, 2010

Metade da Vida.


Hoje, 14 de Junho, é meu aniversário.

Se as estatísticas estiverem certas e com uma boa dose de otimismo cheguei à metade da vida. Já havia dito isto há dez e há cinco anos, mas agora não tem mais jeito: o primeiro tempo chegou ao fim e o segundo já começou. Já se foi a fase de bebê, de criança, de adolescente agora se vive a chamada idade adulta, da maturidade rumo a velhice e ao fim. Mas todas estas fases estão presentes dentro de mim, construindo o meu eu de hoje, que é diferente do de ontem e estranho ao de amanhã. Sou ainda um pouco criança que engatinha em busca dos braços aconchegantes da mãe, sou um adolescente curioso cheio de sonhos e inconseqüências, sou um adulto com responsabilidades que batem a porta a cada instante. Já sou também um velho nostálgico e com manias. Tudo faz parte de mim hoje, na metade da vida.

No meio da estrada quando olho para trás vejo uma sucessão de experiências que contribuíram para ser o que sou até aqui. Foram vivências incríveis que me fizeram mais humano e mais feliz, lugares exóticos que conheci, gente que passou por mim e deixou sua marca, reflexões feitas que serviram para me clarear o rumo e me salvaram de ficar rodando no mesmo ponto. Acúmulo de livros, filmes, músicas, sabores e amores que foram ajudando no talhar de minha personalidade ainda tão conflitante e complexa. Mas também houve os momentos em que nuvens pesadas baixaram e me fizeram flertar com a dor, a solidão, a angústia e a morte. Foi quando o abismo se tornou bem próximo e sua sedução ficou grande a ponto de não saber medir com certeza a diferença entre o devaneio e a realidade. Ai que a fé teve presença forte. As perdas talvez tenham sido os momentos mais difíceis que encarei. Pessoas que se vão, que ficam perdidas, que se modificam. Lugares que não retornei, situações roubadas e facilidades caçadas deixaram cicatrizes fortes que trago no corpo e na alma como um escrito de biografia mundana.


Acho que a personalidade é o somatório de tudo isto: experiências, vivências, reflexões, imitações. Quando se chega à metade da vida, se tem a impressão de que as bases estão prontas, que agora o que se construir será em cima desta realidade. Isto, no entanto, não impede de que mudanças bruscas possam acontecer, contrariando o estilo de vida que se vinha tendo até aqui. Geralmente neste período que se criam os isolamentos, principalmente quando a saúde já mostra debilidades e as possibilidades de aceitação social, num mundo que cultua a beleza jovem, ficam mais reduzidas. Ou, em outro extremo, que os desbundes acontecem como uma libertação do que se foi preso durante tanto tempo. A tentativa de buscar num tempo que já passou as sensações e emoções não vividas tentando reabilitá-las no presente.


Sinto, no meu caso, que não estou pendendo para nenhum destas extremidades. Não preciso ter deslumbres, pois sempre tive uma vida libertária e que, até esta metade, foi bem vivida e aproveitada até onde minhas pernas, minhas possibilidades e meus desejos me levaram. Também não acredito que o chamado pára tornar um eremita venha a me encantar. De forma contraditória, mas não conflitiva, sempre exercitei uma saudável solidão, um distanciamento constante do cotidiano, apreciando os momentos de ficar comigo mesmo entre pensamentos e
ilações, entre leituras e vinho tinto, entre boa música e boa fumaça. Talvez estes tenham sido a melhor parte da herança desta primeira metade da vida: saber o tempo de viver a liberdade e o tempo de se recolher na boa solidão.


Enfim, a fase que se apresenta tem desafios novos e bagagem acumulada. A tentação de ser um eterno adolescente, um Peter Pan fora de contexto, ronda todos nós e lidar com ela é uma luta constante. As primeiras rugas, a careca, a exigência dos óculos já indicam que o tempo esta passando, mas a parte interna revela muito mais do que isto. Nem toda a pessoa com mais idade pode ser considerada um sábio, por que o processo de acesso a sabedoria não se limita aos limites humanos da idade. No entanto, a grande vantagem dos que vivem mais em relação aos jovens é justamente a experiência acumulada por situações que sempre se repetem de geração em geração, como a busca do reconhecimento, os dilemas entre a auto-estima e a satisfação do outro, a ilusão do amor romântico, as imposições que a sociedade cria e oprime. Por todos estes caminhos tortuosos eu já passei e acumulei dispositivos que têm me ajudado a reagir diante das ilusões, tratando-as da forma como elas são, embora não seja totalmente imune a elas.


A vida segue seu ritmo independente das tentativas humanas de limitá-la criando calendários e relógios, fora isto cada um obedece a seu fluxo observando suas potencialidades e limitações. Que esta segunda metade seja uma oportunidade de colher tudo o que se fez até agora e que, principalmente, continue sendo um período de semear novas expectativas. A felicidade é um processo pessoal onde cada um dirige suas cenas. O importante é não ficar parado esperando pelos acontecimentos, mas saber protagonizar sua própria historia. Somente assim que a certeza de que valeu a pena tudo o que foi vivido estará presente no final de nossa caminhada.

8 comentários:

garoto cientista disse...

Meninu, estás apenas na metade, ainda há muita coisa pela frente, simplesmente faça valer apena. Parabéns, tudo de bom, muita felicidade e amor.

Anônimo disse...

Tenha um DIA com muito:

    ♥..♥
    ♥..♥ AMOR
    ♥..♥
              ♥..♥
              ♥.. ♥ CARINHO
              ♥..♥
       ♥..♥
       ♥..♥ PAZ
       ♥..♥
      
  ♥..♥
  ♥..♥ SAÚDE
  ♥..♥
          ♥..♥
          ♥..♥ FELICIDADES
          ♥..♥

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(`“•.¸(`“•.¸ ¸.•“´) ¸.•“´)
«`“•¸.¤ Abraços ¤.¸.•“´» FELIZ ANIVERSÁRI

Anônimo disse...

Que palavras tocantes... você, como sempre, um grande poeta!!
Parabéns mais uma ves

Rodrigo Regis

Anônimo disse...

Te amo e tenho orgulho do homem que voce é, Deus te abençoe.

Diogo Almeida disse...

Acho que a solidão saudável que vc exercitou vem desta leitura interna que passa dentro de nós , e a tua leitura da vida está áo nível do que a vida realmente é , ou seja, arte pura , puro primor.
Na verdade creio que tu sejas a testemunha das paisagens da alma , pois quando leio oque dizes também parece que estou lendo a mim mesmo.
Uma bela construção de ser humano que chegastes até agora , e mais belos ainda serão os frutos dessa árvore aldulta , pois só as árvores adultas dão seus melhores frutos , e dentre esses frutos alguns são verdes ainda e outros maduros.
Parabéns , parabéns! Me emocionei bastante. Me parece que sei o quanto é sentir isto tudo.

Anônimo disse...

Viva,

Não nos conhecemos pessoalmente, mas decidi contactar-te por e-mail. Espero que não leves a mal.

Acontece que no outro dia fazia uma pesquisa no Google pela palavra “mágoa” e deparei-me com o teu texto no blog “meninos eu vi”, precisamente sobre a mágoa.

Achei o texto surpreendente, tanto pela sua beleza como simplicidade.

Eu escrevo muito profissionalmente, mas sobretudo textos de natureza técnica e tenho uma grande admiração por quem faz da escrita uma arte, muito mais que uma mera ferramenta.

Tenho regressado ao blog e lido os restantes textos com bastante satisfação, identificando-me em muitos aspectos com o seu teor.

Julgo que tenhamos idades aproximadas (fiz 38 em Abril) e, talvez por isso, venho-me confrontando cada vez mais com algumas das questões que tratas no blog.

Sinto sobretudo, uma crescente necessidade de desenvolvimento espiritual, que me permita adquirir a capacidade para saber separar o essencial do acessório e comportar-me em conformidade.

Tem sido neste sentido que ultimamente tenho procurado aproximar-me mais da família e refazer alguns laços de amizade que se vinham soltando.

Infelizmente vivemos uma cultura cada vez mais globalizada que nos empurra valores distorcidos e falsas prioridades, cabendo a cada um de nós fazer o esforço para regressar ao essencial.

Espero que tenhas saúde e vontade para continuar a publicar textos, que eu por cá (em portugal), continuarei a ler, certamente, com satisfação.

Termino citando um escritor/jornalista aqui da terra (a frase é linda demais para ser da minha autoria), Miguel Sousa Tavares, no seu livro “Não te deixarei morrer, David Crockett”, que reli recentemente e com a qual julgo que te vais identificar:

"E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."



Um Abraço



Rui Costa

Amanda Carvalho disse...

Uau, me arrepiei. Adorei seu texto e sua capacidade de extrair da vida muito mais do que ela oferece. Teu oolhar sensível e teu pensamento tornaram esse texto único e muito, muito bonito. Continua escrevendo!

Bruno Franzon disse...

Já li este texto mais de 5 vezes e não me canso. Parabéns.