terça-feira, maio 01, 2007

Do agreste pernambucano para a Avenida Paulista em menos de 24 horas


Esta semana pude ver e viver as enormes diferenças que o nosso país tem. Fui ao interior de Pernambuco, distante sete horas de Recife. Uma cidade pequena, chamada Salgueiro, próxima da divisa com o Piauí. Voltei no tempo nas delicias da vida interiorana. Praça com coreto, casas geminadas, cadeiras na calçada no fim do dia, silêncio a noite, gente acordando cedo e caminhando nas avenidas. Vida pacata que se arrasta comandada pelo relógio da matriz. Andei na boléia de caminhonete, comi carne de bode, sentei com os nativos num bar e ouvi os relatos cotidianos, até baterem 23 horas e as ruas esvaziarem e nem táxis existirem para voltar ao hotel. Lá me sentia celebridade quando dizia a profissão, de onde eu vinha por onde andei. Virei novidade, com a atenção disputada e tendo bons ouvintes ao que eu queria falar.

Depois de alguns dias embarquei numa outra jornada indo de lá para Recife e depois de uma espera chegando a São Paulo. A cidade agitada, nervosa, cosmopolita me recebia com a poluição e as novidades habituais. Multidão no caminho que saí do aeroporto, e nas principais avenidas, gente correndo, esbarrando, sem tempo para dizer um olá quanto menos ouvir os dramas alheios. Pelo caminho observava as ruas, agora sem grandes placas, as ofertas imensas de alternativas de lazer. Os ambulantes oferecendo seus produtos, os altos prédios, o corre-corre nos sinais. Vida pulsando na cidade que nunca pára.

O choque de opostos me fez pensar nas coisas em comuns nos dois cenários e a respostas veio rápida: nas duas pontas pessoas em busca de sonhos, gente tentando sobreviver. Os desafios do sertão são imediatos: estudar, emprego, casar, poder pagar as contas e, invariavelmente, sair dali e não voltar nunca mais. A vida segue calma e tranqüila com direito a sesta após o almoço e a noite ficar na frente da TV bebendo da vida que é vendida nas telenovelas. Nos grandes centros além destas preocupações se acrescente o medo da violência, dos assaltos, as multidões. A pressa pelo próximo metro, próximo ônibus, para não perder o horário do banco, do cinema, da liquidação. As ofertas são maiores e, por conseqüência, se ampliam também às frustrações e os desejos de consumismo.

Ser feliz pode ser uma realidade tanto lá quanto cá. À medida que ampliamos o nosso horizonte vamos agregando a nossa personalidade pontos mais interessantes, passamos a ter mais elementos para decisões e julgamentos. Nossa personalidade se torna mais atraente e mais cosmopolita inclusive para entender e conviver com diferenças e diversidades. No entanto, também cresce a responsabilidade, a ansiedade, as angústias e dúvidas que o saber arrasta junto com o seu manto de benesses. Não raro me questiono se não é mais feliz aquele cuja preocupação principal e atirar o milho para as galinhas todo o dia na mesma hora.

Na caatinga ou na frente de um shopping ultra-moderno as diferenças e anseios do ser humano só variam na intensidade, são muito parecidas e se tornam presentes em todos os momentos. Poder sentir estes contrastes num curto período de tempo me levou também a refletir sobre o quando o exterior influencia em nós, e o quanto nos deixamos influenciar por ele. Muitas diferenças em poucas horas. O choque de opostos e o cansaço me derrubaram e dormi por onze horas.

5 comentários:

Monsieur Coçard disse...

e o engraçado é que sou parte do movimento que acho que crescerá muito daqui a uns anos... o dos fugitivos!
to doido pra me dar bem logo na vida pra ir morar numa cidade pequena de interior... preferência interior de são paulo numa cidadezinha chamada caçapava ou uma cidadezinha do sul...
quero um lugar tranquilo para criar meus filhos..

abraços

D o n a t e ll o™ disse...

unm dia vou morar no campo,a unica coisa que me mantera em contato com são paulo será com meu computador rss.paravens pelo blog.abraço

Insana disse...

Moro Em Teresópolis, aqui é uma cidade tranquila. Em alguns bairros ainda se pode sentar pra bater papo despreocupado na rua. Em outros não. Vivo esse oposto aqui mesmo, ora cidade do interior, ora cidade "grande", mas não troco por nada nesse mundo.

Bjão.

Diego Moretto disse...

Sem dúvida cara que é delicioso isso. Já tive a oportunidade tambem de viver um contraste reflexivo desses. Viajei para Manaus e depois de lá fui à São Paulo. Te digo que em Manaus o senso cultural daquele povo é maravilhoso...sentar e ouvir historias da região é uma dádiva, adoro muito. Bom, não sei se vc faz essas viagens a trabalho, mas pretendo (quando me formar jornalista) tambem aproveitar cada momento q a profissão me der.

Bom, parabens pelo texto, escrito com uma coesão q é bem difícil de se encontrar nos artigos de blogs hoje. É isso. Grande abraço e até a próxima. abs!

Patrício disse...

Se tivesse shopping center nas cidades pequenas, eu não pensaria duas vezes em ir embora de Porto Alegre! Odeio essa pseudo-metrópole!