sábado, dezembro 15, 2007

“Pra mim, chega !”

O poeta piauíense, Torquato Neto, encerra assim sua nota suicida: “Pra mim, chega !” Depois de envolver-se profundamente com toda a efervecência cultural que acontecia no Brasil nos anos 60 e de conviver com artistas de vanguarda, meio do qual sairam a tropicália, a poesia concreta e o cinema marginal, ele desiste de tudo e aos 28 anos tira a vida. Não o faz de forma política gritante ou num gesto para chamar a atenção sobre si, não precisava disto, mas sim porque se sentia pressionado entre a patrulha de esquerda e o conformismo, que desaguava no escapismo e que, segundo ele, flertava com a burrice. Depois de ajudar a parir tantas frentes de iniciativa se viu sem perspectiva e preferiu desistir da vida. No mesmo bilhete final pede para não sacudirem demais seu filho, Thiago, pois “ele pode acordar”. Torquato preferia que o filho não fosse submetido as exigências da militância orgânica que o queriam menos sonhador e mais ativista. Sua saída foi drástica, mas marcante. Se hoje este recurso fosse usado como caminho de protesto contra o conformismo e o escapismo, teríamos índices de suicídio entre os maiores do mundo.

Em todo o mundo quase um milhão de pessoas ao ano se suicida, um quinto na China, outro quinto distribuído entre Índia, Rússia, Estados Unidos, Japão e Alemanha. O número de tentativas com sucesso é maior nos homens do que nas mulheres, sem dúvida porque os homens escolhem, geralmente, métodos mais violentos (enforcamento ou revólver), enquanto as mulheres preferem intoxicação por medicamentos ou gás. Os motivos para um ato extremo destes são imensos e variam de caso a caso. Para alguns a única alternativa diante de uma pressão insuportável e sem perspectiva, para outros uma forma derradeira de chamar a atenção sobre sí, de fugir da solidão a que estão confinados, ou ainda uma maneira de produzir sentimentos nos que o cercam como remorso, tristeza e reflexão. O erro de julgar tal atitude é o mais freqüente. Se a vida é dada de forma gratutita, o viver requer muitos elementos: esforço, afeto, compreensão, iniciativa e mais uma gama enorme de coisas. Tudo isto não é fácil e o meio não ajuda em nada neste sentido, ao contrário dificulta, principalmente quando as pressões sociais se agigantam encontrando a pessoa, às vezes, ainda não tão forte para enfrentá-las. Isto talvez dê pistas para o grande número de suicidas adolescentes, a terceira causa de mortes entre jovens nesta fase da vida.

Torquato dedicou sua vida a criar. Não criação consumista que não leva a nada, além do momento fugaz de prazer barato, mas Criação que aprofunda e conduz ao conhecimento, que fica como um acréscimo na vida e uma pista para ser melhor. Sofrendo as pressões daquele momento, preferiu nao capitular e caiu fora. O que cada um de nós faz diante das pressões que sofre no cotidiano? Do convite ao conformismo e a estagnação? Quantos pequenos suicídios promovemos? Uma concordância não convicta aqui, uma renúncia ali, um aceite forçado acolá. Quantas vezes acabamos concordando, com preguiça, com algo que nem temos certeza ou desistimos de um plano, um sonho, uma possibilidade porque ela se apresenta demasiado dificil e exigente. Ou, ainda, quantas vezes colocamos toda a nossa esperança em cima de uma alternativa, uma pessoa, uma situação, um prestígio bobo ou uma notoriedade frágil e quando este castelo caí, caímos também.

Morremos um pouco a cada experiência destas. Não como a morte inevitável que se aproxima a cada dia, mas de uma forma mais intensa pois proporcionada por nós mesmo. A grande maioria não chegará ao extremo que levou Torquato e tantos outros, mas chegaremos todos com menos uma vida mais opaca, na medida em que nos deixamos levar por estas questões. Enquanto alguns julgam os suicidas, estes mesmos se matam cotidianamente afogados na hipocrisia, enforcados no comodismo, aspirando mesmices e se intoxicando de falsas limitações auto-paridas.

Viver não é fácil, e chego a pensar que a cada dia se torna mais difícil. Tanta coisa para pensar e administrar, tanta coisa pra resolver e encaminhar. Tantos convites a largar tudo e ficar olhando pro teto. Tanta gente querendo influenciar, manipular, nos usar e descartar. Tantas portas que se fecham e ideais que morrem. Tantas opções de compra a longo prazo e tantos cobradores desaforados a nos procurar insistentemente depois. Viver bem e com qualidade tem sido um artigo raro, muito raro. Quantas culpas e pecados, sonhos desesperados e bem guardados segredos. Qual a saída?

Numa de de suas letras, Torquato revelava como um arauto que trazia” a notícia da grande alegria que vem. Pra durar mais que um dia . E ficar como antigas cantigas. Que não morrem. Que não passam jamais. Como passam sempre os carnavais. Ele se foi quando quis, mas deixou um arsenal de idéias para pensar e caminhos para bem viver, e que a grande alegria inconformada e criativa, fique entre todos nós.

16 comentários:

Dragus disse...

Não tenho o preconceito que as pessoas possuem pelos suicidas.

O motivo é simples, eles são mais corajosos que eu.

É preciso muita coragem para não importar com mais nada.

Na conta! disse...

Viver não é fácil, e chego a pensar que a cada dia se torna mais difícil.

O viver por sí só não se torna dificil, nós que o tornamos. Nesse caso, ativando a teoria da relatividade, não é meio que está transformando o fator e sim as pessoas agindo com o meio..

Entende-me né?
Abraço!

Anônimo disse...

Cada um é dono da sua vida, por isso nao cabe a mim julgar ninguem.
Vou vivendo incorformada, cada dia me gasto um pouco mais...

Giovanna disse...

Discordando do comentário do "Na conta!" , não acho que o viver em si seja difícil.
O que tem desgastado algo relativamente simples...
Ah, opss, agora sim li a outra parte do comentário dele e ia dizer praticamente a mesma coisa.
Deixa para lá, então!

Não sabe o quanto me alegrei ao vir responder seu comentário e ver que você é jornalista. Na minha mente soou histericamente: "Uouu! Um jornalista -ou estudante de, não me lembro- gostou do meu textooo!"
Você acaba de fazer uma garota bem feliz e isso olhando ainda apenas seu perfil.
Quando li seus textos fiquei babando e me tornei sua fã com direito a garotinhas gritando na porta da sua casa.
O texto "O livro abandonado e o amor esquecido" é lindo...!

Ok, deixa eu parar de te idolatrar, vai que começo a ter alucinações querendo ser você, dai te sequestro e me tomo o seu lugar... É só fazer uma cirurgia de mudança de sexo e pronto! Nem perceberão a diferença.
(Ignore meus desatinos, por favor... Mas é que realmente adoooreii seus textos.)

Posso abusar da sua boa vontade?
É que estou com uam incríivel dúvida do que fazer para o vestibular. Estou entre letras e jornalismo e ambos cursos me fascinam.
Jornalismo é bom? Ajuda nos textos?

Até mais,
Giovanna.

(Não estou logada, vai aqui o endereço do blog...)
www.cacosavulsos.blogspot.com

Ligia B. disse...

Eu entendo os suicidas... sou um deles. Estou aqui ainda por pura falta de oportunidade. Não que ela não tenha aparecido, vez que outra nos demos de cara, é que sempre vem na hora errada, ou estou ocupada ou com preguiça de levá-la a sério. Pode soar como desculpa, mas não é. É que na verdade tenho algumas dúvidas a serem sanadas do lado de cá... depois, quem sabe. Pensando bem, o suicídio nada mais é que o medo de não poder viver mais e ter tempo de resolver o que está nos incomodando... o suicídio é a maneira mais prática de passar a bola pro outro. De repente me deu uma vontade louca de ficar até o final dessa partida e ver quem fará o gol e ouvir os aplausos da torcida e me sentir parte dessa equipe. Viram, estou sempre dando ouvidos a outras vontades quando “a tal oportunidade” aparece?!

Isabelle disse...

Sabe...
As vezes, de tão só que me sinto, de tanta tristeza que me ataca, também acho que queria morrer, mas não teria coragem, pois a todo momento que essa idéia vem a minha cabeça, lembro-me de Deus, e de todas as pessoas que ele fez para me fazer feliz!
Não vale apena morrer,
prefiro esperar o momento que Deus quer!

blog disse...

Animei-me ao ler sobre TN, mas percebi que a postagem era mais sobre valorização da vida do que sobre o gênio tropicalista.
Enfim, a postagem é boa do mesmo jeito.

Paradoxalmente, em "Os Últimos dis de Paupéria", Torquato chega a dizer como a vida era importante, e como a constituição de uma família e a manutenção dos amigos era fundamental ao homem moderno.

Stefanelli 2000 disse...

muito bom o blog,,parabens....
gostei da smaterias...

Vanessa disse...

Prá quem fica, o suicídio de um amigo/parente é um ato incompreensivel. Fica aquele vácuo!
Preciso me interar mais da obra de Torquato!


http://lacumbuca.blogspot.com/ Blog coletivo sobre música

http://lasanhadeabobrinha.blogspot.com/
Meu blog

FALSA REALIDADE disse...

cara, muito bom!
pra mim tb chega!!!
te +

Everaldo Ygor disse...

Torquato, da revolução das letras... Romântico, libertário. Levou ao extremo toda sua arte e depressão diante toda a hipocrisia da sociedade da época, não muito diferente da realidade de hoje...
Confundindo o momento da criação, com o suicidio precoce...
Otimo Post!
Abraços
Everaldo Ygor
http://outrasandancas.blogspot.com/

Pandorix disse...

Alguns pequenos comentários:
Pessoa já dizia que VivER É UM ATO PERIGOSO!
A vida é assim, cheia de percalços e vamos cometendo suicidis diários - frutos de nossas escolhas, do esvaecimento dos sonhos, do esgarçear das relações humanas.
O fatdo as vezes de torna arduo e a melhor saida é tentar levar isso com bom humor! Ou ter a visão ferina para não perder-se nesse mar de desilusão.
Outra coisa : suicidios oficiais são permeados por questões de generos: mulheres tentam mais - morrem menos/ homens tentam menos - morrem mais PORQUE as mulheres preferem metodos carregados de sutilezas e levezas : venenos, pilulas, agua sanitária e gás ( não gazes Lee que remetem a flatos..uhuhu) e homems preferem métodos definitivos /radicais que exijam força/precisão: tiros e enforcamentos.

Hiteri disse...

Cara,

"Os Bons morrem jovens"

Durante um tempo isso para mim só era poesia, mas quando se passa a viver de verdade, tentando fazer coisas de verdade, com uma vontade sincera e com propósitos limpos e verdadeiros, a gente passa a ver que nem tudo é possivel. Não pela nossa vontade, e sim pelo um meio externo que elimina totalmente toda uma intenção pós a algo que vá alem dos nossos interesses egoístas.

O mundo tá cheio de fdps. Muitos mesmo, mas porque? Porque outros fdps já provaram isso para tais, e assim só se tem duas escolha: Ou você se adegua a um deles, ou fazemos o mesmo que Torquato, nos matamos. O meio termo só é uma questão de tempo.

É, o mundo é hostil.

Maravilhoso o post, cara. Fazia um bom tempo que não via alguem abrangir tão bem um assunto que pessoalmente, acho que nem todos tem a capacidade em trabalhar de uma maneira tão completa e real.
Do tipo de post enorme que você lê do começo ao fim.

Parabens.
Já está Add.


Abraço!

MaxReinert disse...

Então.. tãodifícil julgar, não é mesmo? Embora seja sempre nosso primeiro impulso!!!

Como já disseram acima, acho que não sou um suicida por preguiça, vergonha ou covardia....

Sem dúvida, está cada dia mais difícil viver... estou tentando me "reduzir", mas é tãããão difícil!

O VIADO E A TRANSGRESSÃO POÉTICA disse...

Não conheço o torquato tão bem assim e nem poderia, ninguém poderia, mas de uma coisa eu tenho toda a convicção: se Caetano Veloso, que foi namorado dele, tivesse assumido o seu amor - e retribuido ao Torquato, que foi seu namorado...- e assumido a sua homossexualidade, quem sabe esse suicídio não teria se realizado. Caetano sempre foi um covarde com relação à sua homossexualidade, sempre com a podre desculpa do "eu não aceito rótulos"... ora, rótulo de "genial compositor" ele aceita, né?
Enfim, quero dizer que, concordado com tudo o que você colocou como motivos para um suicídio ou para mortes em vida, está também o ENRUSTIMENTO, o não assumir a sua orientação sexual, o que colabora com a infelicidade de muitos, de todos ao redor, além do próprio. Colabora ainda com o conformismo e com o conservadorismo, é a trágica negação da liberdade. Já que estamos levantando "motivos", por que não esse?
Por último, penso que o suicídio é um ato de coragem, cada um tem todo o direito de decidir o que fazer com seu corpo. Outras convicções têm apenas caráter religioso e nem todas as pessoas são obrigadas a crer...RICARDO ROCHA AGUIEIRAS (aguieiras2002@yahoo.com.br)

max disse...

Eh verdade...quantos pequenos suicidios cometemos a cada dia?? Mas acredito que viver nao eh dificil, somos nos que o tornamos assim. Se ao menos conseguissemos parar e enxergar as pequenas coisas que trazem felicidade em nossas vidas...`viver e nao ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...eu sei que a vida devia ser bem melhor E SERA mas isso nao impede que eu repita: eh bonita, eh bonita e eh bonita.` A vida realmente eh linda...Quanto aos suicidas...acredito que muitos deles agem por impulsividade e que talvez em seus ultimos suspiros eles se arrependem de tal decisao...