sábado, abril 12, 2008

O cosmopolita e o provinciano


Erroneamente se atribui o título de cosmopolita à pessoa que teve acesso a culturas diferentes, viajou para lugares distantes, teve oportunidades de experimentar cores, sabores e vistas incomuns. Por outro lado, ganha o rótulo de provinciano o que vive sua vida pacata em lugares calmos onde a rotina é companheira. Uma frase que li num pára-choque de caminhão dizia que "se pode ser provinciano em Nova Iorque e cosmopolita no Gama." Como o caminhão circulava no Distrito Federal, cabe explicar que se trata de uma das 18 cidades satélite que circundam Brasília. Tenho notado que com as facilidades de financiamento, com a ascensão de uma parte da classe média e com o surgimento de novos ricos, cada vez se confunde mais o fato de se ter recursos para acesso a oportunidades, antes restritas, e saber realmente entender e aproveitar as chances que estes recursos proporcionam mais facilmente.


Chego a achar um desperdício pessoas que compram vinhos caros, e bebem rapidamente sem curtir o sabor que aquela bebida pode proporcionar, ou tendo a chance de ver exposições valiosas passam correndo pelos corredores sem dar a devida atenção à lógica artística que esta sendo exposta. O verdadeiro provinciano é o que mesmo podendo comprar o acesso a determinado bem, não reúne elementos para compreendê-los nem esforço ou capacidade para isto. O esnobismo, a exibição e a futilidade funcionam como objetivo principal. Enquanto isto o outro pode nunca freqüentar museus famosos ou acompanhar espetáculos renomados, mas dentro de sua simplicidade genuína consegue ser ele mesmo de forma única e assim ser universal. Alias é atribuída a Leon Tolstoi a frase: “Conhece tua aldeia e serás universal".

Além da freqüência de outros bens culturais e da convivência com a arte outros traços marcam a diferença entre estes dois tipos, ao observarmos outras óticas do mesmo tema. Ser cosmopolita é estar aberto ao conhecimento do novo, é encontrar até na rotina cristalizada motivações diferentes e fazer delas oportunidades de crescimento e auto-conhecimento. Um cosmopolita se esforça para que as barreiras de idade, cultura, raça, classe social e outras não sejam muros que se param as pessoas, mas pontes de encontro ligando pelas diferenças. Já um provinciano acha que a verdade esta limitada ao seu terreno, não impedindo que nenhuma idéia diferente entre no seu espaço, pois a interpreta como ameaça ao seu ideário construído e acabado. Envelhecem com rapidez se reduzindo, limitando suas experiências e mentes e se acabam mesmo antes de morrer. Estas diferenças independem da condição financeira, formação e de idade. Existem velhos jovens e abertos ao novo e as descobertas e jovens fechados e limitados carcomidos pelo peso do tempo, mesmo com rostos sem rugas.

Muitos anseiam pelo cosmopolitismo consumindo produtos de outros lugares, sem avaliar a sua real qualidade ou lançando-se em busca de contatos virtuais de terras distantes, que na maioria vezes se revelam frustrantes. E, no entanto, surgem oportunidades de ser melhor ao lado, ali na padaria, no bar da esquina, na rua de cima. Pessoas com experiências e capacidade de reflexão que somam e mesmo vivendo numa aldeia perdida se tornam grandes na sabedoria e no conhecimento, bases de todo o cosmopolitismo. Basta uma abertura e um esforço para vencer os preconceitos e uma gama de novas realidades não pensadas podem surgir. Uma onda de cosmopolitismo mesmo no espaço reduzido de nossa província, nos lava a mente transformando-a em universal mesmo estando em casa.

5 comentários:

Larissa Bohnenberger disse...

Excelente texto!
SEmpre gosto de tudo o que leio aqui, mas este texto foi muito pertinente. Cosmopolita e Provinciano são duas palavras muito usadas com o signiicado deturpado.

Beijos!

Groo Veiga disse...

Extraordinário! Foi exatamente no cerne da questão: esnobismo, a exibição e a futilidade!

Novos ricos, classe média alienada que só pensa em TER TER TER, provincianos que acham que ter um IPOD é o "supra sumo" da modernidade ( que vai se confundir com uma mentalidade cosmopolita).

Muito bom o texto, excelente reflexão!

abs!

APaula Campos disse...

Muito bom!!!

Esse texto veio na hora certa pra eu mandar pra uma pessoa!!!

Rafael disse...

Texto muito bom mesmo.
Li outros posts.

Eis formado em história, filosofia, letras?

Vou salvar o link desse blog. Voltarei aqui ainda hoje.

PS: Aguardo resposta.

MaxReinert disse...

Como vc mesmo observa tão bem... tudo não passa de uma "atitude"!!!
Tem gente que faz questão de ser provinciano, mesmo tendo acesso às melhores coisas!!!!