sábado, setembro 26, 2009

Efeito Beija-Flor



Pulamos de ilusão em ilusão como passarinhos que trocam de galho no início da primavera.Em busca do galho mais perfeito, mais seguro, mais aconchegante. Somos como o beija-Flor, que de flor em flor, colhe e transporta o pólen na tentativa de germinar. A cada bicada uma procura e a cada flor que se fecha uma ilusão que se desfaz. A fugacidade da beleza da natureza leva a refletir sobre as ilusões humanas. As flores, por mais lindas, duram pouco. A cerejeira é um exemplo, pois sua impressionante beleza dura poucos dias, e acumula ao seu redor dezenas de pessoas munidas de máquinas fotográficas querendo registrar esta peculiaridade efêmera. Nossa vida, muitas vezes, também é assim. Registrar belezas efêmeras, de curta duração, cujo impacto pode se prolongar por toda uma existência e cuja lembrança perpassa toda uma vida. Homens beija-flor que somos, mergulhamos na ilusão de que o pólen do momento germinará mas desígnos estranhos, ou escolhas humanas, invadem nossos sonhos nos trazendo para o chão da realidade. E assim seguimos até a próxima idealização, a próxima ilusão, a próxima flor que se abre vistosa em busca do nosso pólen. Será que viver é isto?

Nossas maiores angústias residem na encruzilhada entre a diversão sem compromisso e a busca de um porto seguro. Os eternos adolescentes vivem o efeito beija-flor cotidianamente, aproveitando fundo as ilusões que os momentos oferecerem sem se preocupar com o dia de amanhã. Os carentes crônicos vivem cada ilusão como a porta de salvação de sua condição solitária, condição esta muitas vezes nem real é. E há ainda os variáveis que a cada dia querem uma coisa, ou que querem tudo de uma só vez e se engasgam com sua própria gula. Tradicionalmente na medida em que envelhecemos a busca por uma companhia especial passa a ser mais intensa. Não exatamente um casamento, que na sua forma tradicional esta fadado ao fracasso, mas nas grandes amizades que se cultivam em cima de companheirismos e cumplicidades. Infelizmente este momento da vida também é acompanhado pela ansiedade, que estraga todo o processo, e o risco de se desvalorizar em busca de uma idealização é grande e a frustração acaba sendo caminho recorrente.

Acho que viver pode ser um pouco de cada destas coisas: cultivar a auto-estima, sonhar sem deixar de ser real, curtir ilusões sem mágoas ou posses. Mas infelizmente chegar neste ponto exige muito e os coloridos ilusórios do longo caminho tentem a ser mais sedutores. De todos os males que a ilusão produz, para mim o pior é o seu cultivo pela falsa possibilidade, a falta de diálogo é um mal terrível e esta incomunicabilidade só destrói. Falar pressupõe primeiro se ouvir. Quando se externa um sentimento, se revela o que estava guardado há muito, abrimos o cofre com o que não queremos nos deparar. Acabamos encarando nossas misérias e nossas contradições e pára não conviver com estes fantasmas, fechar a boca acaba sendo o caminho mais curto. Um ato de egoísmo intenso.

Vivi grandes e boas ilusões que me fizeram feliz por momentos e me marcaram para toda a vida. De todas elas levo a experiência e as lembranças como medalhas por ter sobrevivido. A sucessão de momentos me fez o que hoje eu sou: o somatório de todas as alegrias e dores, todos os gozos e decepções que fiz acontecer. Ter uma vida de minisséries é intenso e variado e exige esforço contínuo de desapego. Ando querendo mais agora. Já tive várias conquistas e superar minhas próprias limitações vai ter o valor de um campeonato vencido. Além dos romances folhetinescos almejo um épico consistente e construído que vá além das primeiras páginas e se expanda por várias primaveras floridas. Sempre estaremos sujeitos as variadas espécies de beija-flores sedutores que cruzam nossos caminhos, espantar tanta beleza seria quase uma afronta ao que a natureza oferece. No entanto, saber admirar sem idealizar e entender a beleza do momento que não se extende também faz parte do respeito a outra natureza tão importante, que é a natureza humana, ou seja, a nós mesmos.

2 comentários:

Dennys Reys disse...

Parabéns, pelo texto "Efeito Beija-flor".... Realmente somos a somatória de muitas coisas boas e ruins. E por mais que as coisas boas e ruins nos deixe quase prontos para enfrentarmos obstáculos parecidos, nos arriscamos em continuar em busca da tão eterna busca: a felicidade.

Anônimo disse...

Dennys Reys: Parabéns, pelo texto "Efeito Beija-flor".... Realmente somos a somatória de muitas coisas boas e ruins. E por mais que as coisas boas e ruins nos deixe quase prontos para enfrentarmos obstáculos parecidos, nos arriscamos em continuar em busca da tão eterna busca: a felicidade.
Que bom que a "preguiça" e o "cansaço" de escrever foram embora. Afinal de contas quando sua alma fala , você a interpreta muito bem por meio das palavras.
O processo de escrever em lembra o pedacinho do poema de Cecília Meireles que diz:
"Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!"

Abraços frateno,

Dennys Reis